Coluna
Rota do Crédito Privado

Opinião: A resiliência dos FIDCs frente à volatilidade dos multimercados

23 mar 2026, 16:39 - atualizado em 23 mar 2026, 16:40
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A indústria de fundos encerrou o segundo mês do ano com captação líquida total de R$ 48,5 bilhões.(Imagem: iStock/Rmcarvalho)

O cenário da indústria de fundos de investimento em fevereiro de 2026 apresentou uma dicotomia entre os multimercados e os produtos estruturados. Enquanto os segmentos de renda variável e multimercados enfrentaram fluxos de saída significativos, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) mantiveram uma trajetória de captação líquida positiva. Os dados consolidados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) indicam que, em um mês marcado pela seletividade do investidor, o mercado de recebíveis demonstrou estabilidade operacional.

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O Boletim de Fundos Anbima mostra um direcionamento claro do capital para ativos mais conservadores. A Renda Fixa liderou com folga, ao concentrar uma captação líquida de R$ 55,6 bilhões, enquanto as classes mais expostas a risco seguiram em movimento oposto: os fundos Multimercados registraram resgates de R$ 7,9 bilhões e os fundos de Ações tiveram saída de R$ 4,7 bilhões. Em meio a esse cenário, os FIDCs destoaram positivamente, com entrada líquida de R$ 1,1 bilhão. Como resultado desse conjunto de movimentos, a indústria de fundos encerrou o segundo mês do ano com captação líquida total de R$ 48,5 bilhões.

O desempenho dos FIDCs em fevereiro posiciona a classe como um mecanismo de descorrelação em relação aos mercados de bolsa. A captação positiva de R$ 1,1 bilhão contrasta não apenas com os fundos de ações, mas também com outros veículos da categoria de estruturados, como os Fundos de Investimento em Participações (FIPs), que encerraram o período com saldo negativo de R$ 221 milhões.

Essa resiliência é fundamentada na natureza do ativo subjacente dos FIDCs. Ao contrário das ações, cujo valor de mercado é sensível a projeções de lucros futuros e variações de juros, os direitos creditórios são lastreados em recebíveis de operações comerciais, industriais, de prestação de serviços ou de aluguéis. A estrutura de cotas desses fundos, dividida em sênior, mezanino e junior, permite uma hierarquia de pagamento que absorve níveis de inadimplência sem impactar imediatamente a rentabilidade das cotas principais, conferindo uma previsibilidade de fluxo de caixa que atrai capital em períodos de incerteza.

Ao analisar a dinâmica dos tipos Anbima, observa-se que o apetite por crédito privado e ativos estruturados de crédito permaneceu presente. Na classe de Renda Fixa, os tipos de maior destaque foram o Duração Baixa Soberano (R$ 18,1 bilhões) e o Duração Livre Crédito Livre (R$ 14,1 bilhões).

O fato de o FIDC manter captação positiva simultaneamente ao crescimento dos fundos de crédito livre sugere que o investidor institucional e o qualificado mantêm a estratégia de alocação em prêmios de crédito, avesso à volatilidade do Ibovespa ou do câmbio, principalmente devido à permanência de uma alta taxa de juros básica.

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No campo das rentabilidades, os dados de fevereiro reforçam a estabilidade do setor. Enquanto o tipo Ações Livre variou 1,80% no mês, os fundos de Renda Fixa de Duração Livre Crédito Livre registraram variação de 0,77%, acumulando 2,57% no ano. Os FIDCs, por sua natureza de ativos de crédito estruturado, tendem a seguir métricas de retorno atreladas ao CDI acrescido de um spread, o que sustenta a atratividade do produto em um cenário de manutenção de taxas de juros em patamares elevados, que deverão permanecer neste ano sobretudo por conta da atual crise do petróleo.

A manutenção do fluxo de entrada nos FIDCs também cumpre uma função de provisão de liquidez para a economia real. Ao captar R$ 1,1 bilhão em fevereiro, o mercado de capitais sinaliza a continuidade do financiamento de cadeias produtivas por meio da antecipação de recebíveis. Este modelo de financiamento se mostra menos dependente das oscilações de curto prazo que afetam os fundos Multimercados, onde o tipo Livre registrou a maior saída mensal entre todos os tipos Anbima (R$ 8,7 bilhões negativos).

Em suma, os dados da Anbima para o mês de fevereiro confirmam que os FIDCs se consolidaram como uma classe de ativos resilientes. A capacidade de manter captação líquida positiva em um momento de resgates acentuados em ações e multimercados evidencia a maturidade do produto e sua função estratégica na diversificação de portfólios voltados para o crédito estruturado. A estabilidade dos fluxos para esta categoria de fundo estruturado indica uma percepção de risco equilibrada por parte dos investidores.

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Fundador e diretor-presidente da Ouro Preto Investimentos
João Baptista Peixoto Neto é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, cursou mestrado em Direito Internacional na USP e é especialista em produtos financeiros e gestão de riscos pela FIA/FEA/USP. Nos anos de 2006 a 2019, esteve entre os primeiros colocados na categoria de estruturação de fundos de recebíveis no Brasil FIDC’s pelo ranking da empresa UQBAR, tendo sido responsável pela estruturação de mais de 300 fundos. Faz parte dos Comitês da Anbima de FII e FIDC.
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João Baptista Peixoto Neto é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, cursou mestrado em Direito Internacional na USP e é especialista em produtos financeiros e gestão de riscos pela FIA/FEA/USP. Nos anos de 2006 a 2019, esteve entre os primeiros colocados na categoria de estruturação de fundos de recebíveis no Brasil FIDC’s pelo ranking da empresa UQBAR, tendo sido responsável pela estruturação de mais de 300 fundos. Faz parte dos Comitês da Anbima de FII e FIDC.
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