Quando o Brasil é ‘price maker’ no açúcar — e quando perde esse poder
O Brasil é, de longe, o principal ator do mercado global de açúcar — mas isso não significa que dita os preços o tempo todo. A diferença entre ser protagonista e ser formador de preços está em um conceito menos intuitivo: a chamada “tonelada marginal”.
Responsável por cerca de 56% do comércio mundial de açúcar e por 75% das exportações de açúcar bruto, o país funciona como a base do sistema global de precificação. Na maior parte do tempo, é a oferta brasileira que equilibra o mercado — e, portanto, define o preço.
Mas não sempre.
Segundo Plinio Nastari, presidente e fundador da Datagro, o preço internacional não é determinado pelo maior produtor e, sim, pela “tonelada marginal” oferecida ao mercado.
“Em boa parte do tempo, o Brasil é formador de preços, mas nem sempre. O que determina a formação de preços é a tonelada marginal que é oferecida no mercado. Há situações em que essa tonelada marginal vem da Índia, ou vem da União Europeia, ou vem da Tailândia”.
A tonelada marginal é, em essência, a última tonelada necessária para atender à demanda global — normalmente produzida pelo fornecedor de maior custo ainda ativo no mercado. É essa unidade adicional que acaba balizando o preço internacional.
O que coloca o Brasil no centro do mercado de açúcar?
A capacidade de adaptar o seu mix de produção, ou seja, a posição privilegiada de flexibilidade produtiva é o que faz o Brasil influenciar o mercado.
“Outros países não têm essa condição e acabam dependendo apenas de clima e intenção de plantio. O Brasil, além do clima e plantio, também mexe no mix. Somos o principal player deste mercado”.
Essa capacidade de arbitragem é significativa. Em alguns anos, a variação do mix já chegou perto de 10%, o que, em termos absolutos, representa cerca de 9 milhões de toneladas de açúcar. Para efeito de comparação, os superávits ou déficits globais costumam girar entre 2 milhões e 3 milhões de toneladas.
Ou seja, o “swing” brasileiro é, sozinho, maior do que o desequilíbrio típico do mercado global.
É justamente esse poder de ajuste que faz com que, na maior parte do tempo, a tonelada marginal venha do Brasil — consolidando o país como formador de preços. No entanto, há um limite.
“Nós deixamos de ser formadores de preço quando chegamos no teto do nosso swing e o mercado demanda ainda mais açúcar. Nessa hora, o Brasil deixa de ser formador de preço, porque a tonelada marginal está vindo de outros países”.
Mais do que uma questão de tamanho, portanto, a influência brasileira no mercado de açúcar depende de sua capacidade de resposta. O país é “price maker” quando ainda tem margem para ajustar sua produção. Deixa de ser quando essa margem se esgota — e o mercado precisa buscar oferta em outro lugar.