Ações do GPA (PCAR3) caem após recuperação extrajudicial: O que trouxe a dona da rede Pão de Açúcar até aqui?
As ações do GPA (PCAR3) estão entre os destaques negativos do Ibovespa (IBOV) no pregão desta terça-feira (10), após o anúncio de que a dona do Pão de Açúcar entrou em recuperação extrajudicial. Na mínima do dia, os papéis caíram 8%.
Diferentemente da recuperação judicial, a extrajudicial permite que empresas em crise financeira renegociem dívidas diretamente com credores.
A ideia não é levar à Justiça a recuperação, mas chegar a acordos sobre a reestruturação de dívidas diretamente com os credores. Dessa maneira, o processo tende a ser mais rápido, menos burocrático e mais barato que a recuperação judicial, focado no acordo voluntário para reestruturar passivos.
O GPA soma cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas que agora estão na mesa para negociações. A cifra, no entanto, diz respeito aos pagamentos sem garantia que não fazem parte de obrigações correntes ou operacionais.
Na prática, a varejista de alimentos defende ao mercado que o processo não envolve fornecedores, clientes ou colaboradores, além de não impactar a operação das lojas, que seguem com funcionamento normal em todas as unidades.
Por volta de 11h55 (horário de Brasília), as ações PCAR3 ocupavam a posição de segunda maior queda do Ibovespa, com recuo de 4,76%, a R$ 2,60. Acompanhe o tempo real.
A pressão financeira no GPA
O mercado já vinha monitorando uma pressão financeira relacionada a vencimentos de curto prazo. Na última semana, o GPA chegou a anunciar a contratação de consultores para auxiliar na busca de alternativas para a melhoria do perfil do endividamento.
A companhia soma R$ 1,7 bilhão em dívidas vencendo neste ano, após encerrar 2025 com capital circulante negativo de R$ 1,2 bilhão. Na prática, existem mais obrigações de curto prazo do que recursos disponíveis em caixa.
A maior parte dos vencimentos está concentrada em debêntures. Em maio, vencem R$ 511 milhões da 18ª emissão (primeira série). Em julho, outros R$ 889 milhões da 20ª emissão (segunda série). Somados, R$ 1,4 bilhão precisam ser pagos nos próximos cinco meses.
Há ainda cerca de R$ 254 milhões da 20ª emissão (terceira série), com vencimentos entre 2026 e 2027, além de um empréstimo de aproximadamente R$ 508 milhões, parte também no curto prazo.
Ao Broadcast, Alexandre Santoro, CEO da varejista com apenas dois meses de casa, afirmou que a decisão de entrar em recuperação extrajudicial é reorganizar o perfil de endividamento da empresa, mas evitando que isso afete a operação.
“Essa medida é o início de um processo de reestruturação das nossas dívidas não operacionais. Ela não envolve pagamento a fornecedor, aluguel de loja ou salário de colaborador. A operação segue funcionando normalmente”, disse ao jornal.
A decisão obteve aprovação unânime do conselho de administração do GPA.
Em meio à pressão, a varejista vem passando há alguns meses por uma “dança das cadeiras”, inclusive, o novo diretor financeiro assumiu o cargo na última semana. Também o Broadcast, ele disse que parte do passivo inclui vencimentos de curto prazo.
De acordo com o executivo, cerca de R$ 500 milhões vencem em maio, enquanto entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão têm vencimento previsto para julho.
Após o protocolo do pedido, a empresa conta com um período de 90 dias para avançar nas negociações com os credores, período em que as obrigações com os afetados ficam suspensas.
“Temos esse prazo para concluir a negociação e chegar às condições definitivas da reestruturação”, disse o CFO ao Broadcast. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de 50% mais um dos credores.
Dança das cadeiras
A companhia teve três CEOs em pouco mais de quatro meses. O atual, Alexandre Santoro, assumiu em janeiro, no lugar de Rafael Sirotsky Russowsky, o diretor financeiro e de relações com investidores que ocupava a posição interinamente desde outubro, quando Marcelo Pimentel renunciou ao cargo.
Pouco depois, Sirotsky Russowsky renunciou ao cargo, passando as funções de CFO para o novato Santoro.
Com queima de caixa acumulada por diversos trimestres, as dívidas foram se somando.
Em 24 de fevereiro, o GPA divulgou ao mercado seu balanço referente ao quarto trimestre de 2025, que mostrou prejuízo líquido de R$ 572 milhões no quarto trimestre, 48,2% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior, mas acima das estimativas.
O resultado operacional medido pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado da companhia ficou em R$ 510 milhões no período, alta de 2,5% sobre um ano antes, segundo o relatório de resultados da companhia.
No período, a companhia presentou uma queima de caixa em 12 meses de R$ 686 milhões, incluindo o impacto positivo das vendas de ativos e do recente aumento de capital/venda de ativos (R$ 96 milhões).
Excluindo esses eventos, a queima de caixa teria sido de R$ 786 milhões no período, aspecto que acende alerta de analistas.
Essas mudanças ocorreram em meio ao avanço da família Coelho Diniz na companhia. Composta por André Luiz Coelho Diniz, Alex Sandro Coelho Diniz, Fábio Coelho Diniz, Henrique Mulford Coelho Diniz e Helton Coelho Diniz, a família elevou a participação para 24,6% do capital do GPA.
Em conjunto, os Coelho Diniz se tornaram os maiores acionistas da varejista. Vale pontuar que o sobrenome Diniz não tem relação com o empresário falecido Abílio Diniz, que popularizou a rede Pão de Açúcar no Brasil. A família é dona de uma rede de supermercados no interior de Minas Gerais, com mais de 20 lojas em operação.
Problemas acumulados
No auge, o GPA abarcava diversas de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
No entanto, houve diversas vendas na busca para conter a sangria do então controlador francês da marca, o Casino, que mergulhou em dívidas lá fora e foi usando os ativos brasileiros para pagar a conta.
Assim, o Pão de Açúcar, que já sofria com a concorrência forte de hortifrutis e da própria Oxxo diante da bandeira Minuto, foi ficando de escanteio nas vendas e acumulando problemas que antes eram do grupo como um todo.
*Com informações do Estadão Conteúdo e Seu Dinheiro