Americanas (AMER3) deixa para trás operação que perdia dinheiro e CEO detalha nova fase
O letreiro vermelho e branco com o nome “Lojas Americanas” está presente no imaginário de muitos brasileiros, seja dentro de shoppings — destino comum antes da ida ao cinema — ou em lojas de rua. Sob a premissa de reunir um variado sortimento de produtos, a empresa onde se encontrava de tudo se viu obrigada a recalcular a rota quando uma fraude contábil levou a varejista direto para uma recuperação judicial (RJ), com preocupações sobre falência.
Três anos depois, a Americanas (AMER3) não faliu e colhe os frutos do seu processo de reestruturação, enquanto aguarda o aval do Juízo da 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro para deixar a RJ. No horizonte está a conexão com os consumidores por meio de estratégias que reúnem o digital e o físico, enquanto prioriza controle de custos e rentabilidade.
Ao Money Times, o CEO da companhia, Fernando Soares, destacou o resultado de vendas e crescimento de receitas no primeiro trimestre deste ano (1T26). A receita líquida do período subiu 20,2%, para R$ 3,08 bilhões, segundo o balanço.
A empresa destacou avanço de 20% na receita bruta consolidada, impulsionado pela Páscoa recorde, além de melhora de 23,3% no Ebitda ajustado IFRS-16.
“Isso tem nos deixado bastante orgulhosos e confiantes dos movimentos que estamos fazendo. E por que isso é tão importante? Porque esse número é fruto da estratégia que estamos desenhando há algum tempo, de colocar o cliente no centro”, disse o executivo.
Do lado dos números, o balanço mais recente mostrou um prejuízo líquido de R$ 329 milhões nos primeiros três meses de 2026, resultado negativo menor que os R$ 496 milhões observados no primeiro trimestre de 2025.
O cenário atual é de juros elevados, que impactam as despesas financeiras, além da alta no endividamento e redução da renda disponível do consumidor de Americanas. A resposta, segundo Soares, é olhar para dentro e entender como a empresa pode sustentar a nova fase da reestruturação.
Uma nova Americanas?
A Americanas trilha um caminho que busca afastar cada vez mais os fantasmas do escândalo que viveu em 2023. Para isso, de acordo com o CEO, a estratégia é sustentada por: cliente no centro da operação, melhor uso de dados, fortalecimento do programa de fidelidade Cliente A, sortimento adequado de produtos, integração entre lojas físicas e digital e maior disciplina financeira.
O cliente da Americanas, segundo o executivo, nunca deixou de consumir. Mesmo com a recuperação judicial estampando manchetes de jornais e disseminada pelas redes sociais, ele afirma que a crise não afastou o consumidor da empresa.
Neste sentido, as lojas, a marca Americanas e a equipe são os três ativos escolhidos para recuperar a companhia e conduzi-la aos 100 anos, em 2029, de acordo com ele.
“Temos utilizado o potencial dessas três forças para reerguer a companhia, aportando disciplina e tentando entregar modernidade e eficiência. Algumas decisões lá atrás podem ter feito sentido na época, mas infelizmente levaram a Americanas para uma trajetória de muita complexidade”, disse Soares.
O papel do digital
A estratégia digital da Americanas passou a ser um dos pilares da disciplina financeira que a empresa persegue em meio à sua reestruturação, de acordo com os executivos.
Thiago Abate, vice-presidente de Consumer & Growth da varejista, contou ao Money Times sobre a mudança de estratégia no digital, que deixou de priorizar um número elevado de sellers (vendedores) dentro do marketplace, direcionando o foco para o O2O (Online-to-Offline), que incentiva a compra no digital com retirada em loja.
“Quando tínhamos 400 mil sellers, você opera com tudo e tem uma complexidade e queima de caixa aí. Essa disciplina, além de acelerar os canais e melhorar a oferta para o cliente, melhora muito a nossa margem”, afirma Abate.
O executivo complementa ainda que o digital da Americanas era muito maior em termos de vendas no passado. No entanto, com uma operação que perdia dinheiro. “Hoje temos um digital mais enxuto, que complementa a loja e que gera dinheiro”, diz.
O CEO, Fernando Soares, pontua que a operação do digital hoje serve à loja, que serve ao cliente. A exemplo disso, na Páscoa, a empresa implementou a possibilidade de reservar um ovo e retirar em loja ou receber em casa, movimento que teve muito sucesso, segundo ele.
Omnicanalidade
A Americanas vem aprofundando a omnicanalidade, que consiste na integração de todos os canais de contato da empresa.
Neste sentido, o CEO recorda que a antiga operação tinha uma certa separação entre o marketplace e a loja física, deixando na mesa potenciais sinergias entre os canais — como a estratégia mencionada dos ovos de Páscoa.
Thiago Abate reforça a mensagem de que, há cerca de 10 anos, poderia fazer sentido uma estratégia que não reunisse os canais e a operação funcionasse quase como duas empresas separadas. No entanto, isso mudou.
O executivo destaca que o cliente pode escolher comprar no site, loja, aplicativo próprio da Americanas ou até mesmo no iFood. A Americanas também irá entrar no Rappi e realizar compras no WhatsApp, como adiantou Abate ao Money Times.
“Faz parte da nossa missão entregar conveniência para o cliente. Antes tinha uma jornada quebrada, então agora existe essa unificação e não existe briga por receita. A receita é minha, a receita é do canal A, do canal B, a receita é da empresa e a gente começa a entender o cliente como um todo”, disse o executivo.
Cenário macro
O varejo convive há algum tempo com um cenário de taxa básica de juros (Selic) elevada, atualmente em 14,50% ao ano. A Americanas afirma que tem feito o que está ao alcance internamente, uma vez que não há como controlar o contexto macroeconômico.
De acordo com o CEO, a Americanas observa de que maneira pode apoiar o cliente a continuar consumindo, o que passa por aspectos como sortimento, tamanho das ofertas, embalagem, frequência da oferta, programa de fidelidade, opções de crédito, entre outros.
Do lado da dívida, o CFO da Americanas, Sebastien Durchon, pondera que a empresa conta com uma dívida líquida limitada. A empresa herdou uma debênture do plano de recuperação judicial de R$ 1,8 bilhão, mas tem uma posição de caixa ainda relevante, de R$ 1,7 bilhão, o que a deixa com uma dívida líquida de R$ 350 milhões.
“Tem incidência em cima dessa dívida líquida de CDI. Então, se o CDI abaixar é melhor para a gente, mas não é um nível de dívida insustentável, longe disso. Se você comparar com outras varejistas, acho que estamos numa posição muito melhor, eu diria”, disse o CFO.
Resultados do 1T26
O resultado operacional medido pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado foi de R$ 15 milhões, ante o resultado negativo de R$ 26 milhões do primeiro trimestre do ano anterior.
A empresa também afirmou que retomou o crescimento da operação digital por meio do modelo O2O (online-to-offline), integrado a plataformas de entrega.
Na Páscoa, a Americanas registrou crescimento de 21% nas vendas de ovos de chocolate e afirmou ter atraído mais de 100 milhões de consumidores para lojas, site e aplicativo durante a campanha.
No varejo físico, as vendas em mesmas lojas cresceram 22% no trimestre, enquanto 83% das unidades encerraram o período superavitárias, segundo a companhia.
A empresa também destacou melhora no digital, que deixou de consumir caixa após redução de custos e ganhos de eficiência. O O2O avançou 56% na comparação anual, com forte crescimento das entregas rápidas e retirada em loja, apoiadas pela parceria com o iFood.
No que diz respeito à recomendações, a Americanas não está na cobertura de analistas de grandes bancos e casas de análises desde a fraude. Entretanto, a companhia afirma que objetiva com o tempo retomar essa relação, conforme os resultados da estratégia se refletirem no balanço.