Japão entre o impulso e o limite: Política, dívida e uma eleição para a história
Um dos acontecimentos mais relevantes do cenário internacional ao longo do último final de semana foi a vitória expressiva da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, nas eleições antecipadas convocadas por ela em janeiro.
O resultado teve repercussão imediata nos mercados financeiros: o Nikkei 225 avançou para novas máximas históricas, refletindo a leitura de maior previsibilidade política e continuidade na condução da política econômica.
O desfecho eleitoral chama atenção também pelo contraste com o ambiente político global.
Enquanto grande parte das democracias atravessa um período de fragmentação e polarização, o Japão parece seguir na direção oposta.
Após anos marcados por maior volatilidade política — sobretudo nos governos que sucederam Shinzo Abe —, o eleitor japonês optou por uma mensagem clara de continuidade, estabilidade institucional e fortalecimento do poder executivo.
A magnitude do triunfo de Takaichi é difícil de superestimar.
O Partido Liberal Democrata obteve uma vitória tão ampla que, em alguns distritos, houve dificuldade até mesmo para preencher todas as cadeiras conquistadas.
A margem final representa o maior resultado eleitoral de um único partido desde o período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, reforçando o caráter excepcional do pleito.
Em termos concretos, o Partido Liberal Democrata ampliou sua presença na Câmara Baixa de 199 para 316 cadeiras, consolidando-se de forma inequívoca como a principal força política do país.
Quando considerada a coalizão com o Partido da Inovação do Japão, que acrescentou outras 36 cadeiras, a base governista supera com ampla folga a marca de 350 assentos — muito acima dos 233 necessários para a maioria simples.
Trata-se, portanto, de uma verdadeira supermaioria parlamentar, que confere à primeira-ministra um mandato político particularmente robusto para avançar sua agenda econômica, fiscal e estratégica nos próximos anos, com menor risco de bloqueios institucionais e maior capacidade de coordenação entre política doméstica e posicionamento geopolítico do Japão.

Fonte: CNA
A decisão de convocar eleições antecipadas representou uma aposta política relevante de Sanae Takaichi. Seus três antecessores, no difícil processo de sucessão de Shinzo Abe, ensaiaram movimentos semelhantes na tentativa de reforçar seus mandatos, mas acabaram, ao longo do tempo, perdendo sustentação dentro do próprio partido.
O desfecho atual, portanto, contrasta de forma nítida com esse histórico recente e confere a Takaichi um grau de legitimidade política que seus predecessores não conseguiram preservar.
Na prática, a vitória abre espaço para a implementação de uma agenda mais ambiciosa, que combina expansão fiscal, cortes de impostos, estímulos direcionados à indústria manufatureira e aumento dos gastos com defesa.
Esse conjunto de medidas também reforça o alinhamento estratégico de Tóquio com os Estados Unidos, em um ambiente geopolítico asiático cada vez mais competitivo.
Não por acaso, Donald Trump parabenizou publicamente Takaichi pela vitória expressiva, sinalizando a importância atribuída ao Japão dentro da estratégia americana para a região.
O contexto internacional adiciona camadas relevantes a esse movimento. O encontro planejado entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping, previsto para abril, é visto como um potencial foco de tensão para o Japão.
Nesse sentido, Takaichi tem a oportunidade de se antecipar ao cenário ao realizar sua própria cúpula com Trump em 19 de março, chegando à mesa de negociações respaldada pelo mandato político mais robusto concedido a um primeiro-ministro japonês em décadas.
Do ponto de vista dos mercados, o resultado eleitoral reduziu de forma significativa a incerteza política no curto prazo, levou o Nikkei 225 a novas máximas históricas e ajudou a estabilizar o sentimento após semanas de volatilidade.
Os investidores reagiram de forma positiva às perspectivas de estímulo e à leitura de uma agenda mais previsível e pró-mercado sob a liderança de Takaichi.
Ainda assim, os rendimentos dos títulos públicos japoneses seguem sensíveis às dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal. O movimento reflete a cautela diante de um provável aumento de gastos e da dificuldade estrutural do Japão em conciliar crescimento econômico, estabilidade de preços e disciplina orçamentária.
Para o Bank of Japan, o cenário se torna mais desafiador: a autoridade monetária terá de calibrar sua política para compatibilizar a meta de inflação com um impulso fiscal mais forte, sem perder de vista a dinâmica cambial — que pode voltar a se aproximar do patamar crítico de 160 ienes por dólar, historicamente sensível para a condução da política econômica.
Um fiscal mais frouxo, em geral, implica maior pressão de depreciação sobre a moeda, o que tende a exigir juros mais elevados para reancorar expectativas.
O problema é que, diante do elevado nível da dívida japonesa, um aumento mais persistente das taxas pode rapidamente se transformar em um risco macroeconômico relevante, alimentando uma dinâmica de endividamento mais desconfortável. Em grande medida, é isso que explica a volatilidade recente do iene: o mercado testa, de forma recorrente, os limites do “equilíbrio possível” entre estímulo fiscal, endividamento e política monetária.
Não por acaso, sinais — ainda que majoritariamente retóricos — de possível intervenção ajudaram a conter movimentos mais agudos da moeda.
E há um ponto adicional importante: também é do interesse do Federal Reserve que o iene não se desvalorize de forma desordenada. A moeda japonesa é amplamente utilizada como fonte de financiamento (“funding”) para posições compradas ao redor do mundo, e uma correção brusca pode provocar aperto de liquidez global.
Além disso, como o Japão figura entre os grandes detentores de Treasuries, um estresse cambial mais severo poderia forçar vendas de títulos americanos para estabilizar o iene, pressionando a curva de juros dos EUA e, por consequência, as condições financeiras globais.
No horizonte mais longo, a vitória eleitoral também reabre debates de natureza estrutural, incluindo a possibilidade de revisão da Constituição pacifista — um movimento que tenderia a aprofundar as tensões estratégicas entre Japão e China.
O que fica claro, contudo, é que o Japão volta a oferecer um pano de fundo mais construtivo para os mercados no curto prazo, sustentado por maior estabilidade política e por uma agenda que dialoga melhor com o investidor.
Ao mesmo tempo, o custo desse caminho se manifesta em um equilíbrio macro mais frágil, sobretudo na interação entre política fiscal, câmbio e política monetária.
Isso ajuda a explicar por que o iene permanece no centro do radar global: há oportunidades relevantes, mas elas vêm acompanhadas de riscos reais — e, como quase sempre no Japão, qualquer excesso tende a aparecer primeiro no câmbio.