Análise: Alta do petróleo pode ser passageira, mas incerteza não
A nova escalada militar envolvendo o Irã reforça a ideia de como a geopolítica continuará no centro do debate macroeconômico. Como sempre, o canal de transmissão mais rápido para o resto do mundo passa pela energia e pelas condições financeiras globais.
Desta vez, o Brasil parece ter maior capacidade de absorver os choques advindos de uma correção de ativos de risco, assim como eventuais impactos inflacionários em consequência do evento.
Até aqui, o conflito tem avançado de modo significativo, mas ainda com implicações relativamente limitadas. A operação conjunta dos EUA e Israel contra alvos militares e de liderança iraniana tem como objetivo a mudança de regime no país, o que tende a prolongar a ação. A resposta do Irã, por sua vez, foi menor e mais concentrada, com ataques rápidos a alvos civis e logísticos no Golfo.
Neste caso, o dano econômico não visa apenas destruir capacidade produtiva, mas elevar o prêmio de risco, encarecer seguros e reduzir a fluidez do comércio, com atenção especial ao Estreito de Hormuz, gargalo por onde escoa parcela relevante do petróleo global.
Seguindo o padrão de outros choques no petróleo causados por eventos geopolíticos, estaríamos próximos do pico do impacto sobre os preços do barril, além de caminhar para a normalidade ao longo dos próximos três meses.
Na mediana de 5 eventos do tipo desde os anos 1990, o impacto máximo é próximo dos 35% atuais, se comparado com o nível de preços do início do ano, e tende a se dissipar em cerca de 6 meses após o início do aumento das tensões, que tiveram início no final do ano passado.
Para o Brasil, a elevação dos preços do barril, aliada ao fato de o país ser um exportador líquido de petróleo, poderia ajudar a melhorar os termos de troca, com reflexos positivos sobre balança comercial e contas fiscais. Contudo, o impacto moderado e a curta duração do choque não sugerem um impacto significativo.
Do lado negativo, uma pressão sobre os preços de combustíveis pode trazer preocupações adicionais para o Banco Central, tanto por elevar a inflação corrente quanto pressionar expectativas.
No entanto, o choque atual encontrou os preços de combustíveis mais ajustados às referências internacionais, o que permite que a defasagem de preços com o choque atual possa ser sustentada sem o repasse por algum tempo enquanto se avalia se a alta do barril será temporária.
Há também o canal financeiro. O aumento da aversão a risco provoca abertura de spreads, enfraquece moedas emergentes e eleva o custo de financiamento. Mesmo para exportadores de commodities, esse movimento pode neutralizar parte do ganho externo, sobretudo quando há sensibilidade fiscal e necessidade de rolagem da dívida, porque a melhora de termos de troca vem acompanhada de prêmio de risco maior.
Ainda que as tensões no Oriente Médio se mostrem passageiras e caminhem para a normalidade nos próximos meses, a elevada incerteza geopolítica continuará presente no restante do ano. No âmbito internacional, esse risco se soma a um mercado acionário já bastante valorizado em função do otimismo com tecnologia, o que pode ampliar eventuais correções de preço.
Já aqui, o segundo semestre do ano unirá a volatilidade inerente a uma disputa eleitoral apertada com as preocupações relacionadas à agenda de ajuste fiscal. A combinação dos riscos externos e locais, caso se coincidam, poderá provocar um agravamento da percepção de risco local e impactar os ativos locais de modo muito mais relevante e duradouro do que os conflitos no Irã têm causado até aqui.