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Analistas, não caiam nessa de que o importante é o que o governante faz, não o que pensa

Cleber Benvegnú
24/06/2022 - 12:09
Gustavo Petro Colômbia populismo econômico
“Muitos analistas seguem negando a incidência ideológica na política. O clichê ‘ideologia não existe’ tem um charme, acessando certo grau de isenção diante da polarização”, afirma Cleber Benvegnú (Imagem: REUTERS/Luisa Gonzalez)

E a esquerda vai tomando conta da América Latina. Eis que a Colômbia, até então imune a essa ideologia, elegeu Gustavo Petro — um típico representante de tal corrente. Mais um guerrilheiro chega a presidente da República em nossos países.

Junto dele, um rol de velhas receitas tanto para economia como para as áreas sociais. Também uma mesma narrativa — de defesa dos pobres e excluídos — como estandarte para um projeto de poder em escala global. Bem mapeado, bem previsível, nenhuma novidade.

A esquerda brasileira comemorou o resultado como uma espécie de prenúncio. Lula disse que a vitória de Petro fortalece a democracia e as “forças progressistas” na América Latina.

Das muitas manifestações dos socialistas e comunistas locais, a de Orlando Silva resume bem o sentimento: “Viva a unidade latino-americana!”. E seguiu: “A dimensão da vitória de Gustavo Petro é histórica. […] Bons ventos sopram, precisamos saber navegar no Brasil. Venceremos a vaga reacionária!”.

O entusiasmo não é sem sentido. De fato, essa visão tem granjeado espaços significativos no continente — Venezuela: Nicolás Maduro; Argentina: Alberto Fernández; Peru: Pedro Castillo; México: Andrés López Obrador; Chile: Gabriel Boric; e, agora, Colômbia: Gustavo Petro.

Aqui, Lula lidera as pesquisas. Em tempo de pós-pandemia, com populações vulnerabilizadas econômica e emocionalmente, uma retórica estatista gera percepção de mais conforto e acolhimento.

O charme do clichê de que “ideologia não existe”

Mesmo diante desse arranjo político claro, muitos analistas seguem negando a incidência ideológica na política. O clichê “ideologia não existe” tem um charme, acessando certo grau de isenção diante da polarização.

Lula
“Será por mero acaso que todos esses senhores comunicam com a mesma linguagem, têm os mesmos valores, os mesmos planos de governo e inclusive os mesmos ídolos mundiais?”, indaga Benvegnú (Imagem: Reuters/Carla Carniel)

Em especial no mercado financeiro, é comum tal diagnóstico de assepsia, segundo o qual não importa o que os governantes pensam, mas o que eles fazem. Ledo engano. As duas dinâmicas importam, porque a cosmovisão sempre guiará as decisões. Ora, isso é ideologia. Simples assim.

Ou será por mero acaso que todos esses senhores comunicam com a mesma linguagem, têm os mesmos valores, os mesmos planos de governo e inclusive os mesmos ídolos mundiais? Portam camisetas de Che Guevara e relativizam as ditaduras cubana e venezuelana por mero acaso?

Não, né… É identidade de propósitos, de visão de mundo, de pautas, de jeito de governar. E é, claramente, um plano de governança que se conecta internacionalmente, inclusive com apoio de organizações mundiais e de capital exterior.

As primeiras manifestações do presidente eleito foram para não deixar dúvida: o tom messiânico, a apropriação da “vontade popular”, a sinalização em favor da bandidolatria – baseada na velha desculpação da luta de classes. Mais do que isso: a linguagem estética também é a mesma, lá e aqui. E, em termos de plano de governo, uma mesma vertente de raciocínio.

O velho populismo econômico de volta à América Latina

Trata-se do velho populismo econômico, calcado especialmente na intervenção do Estado na economia como uma espécie de mão salvacionista dos pobres. Nada muito diferente do receituário argentino, por exemplo, que está dando no que vemos.

De resto, uma promessa de impor mais espaços para as mulheres, a ideia do que chamam lá de “desmilitarização da vida social” e todos os outros velhos fetiches afins, explicitados em frases de boa retórica emocional, tais como: “Peço ao procurador-geral da nação que liberte o nosso povo. Liberte os jovens!”; “Que as armas deixem de existir por fora do estado colombiano”.

É a isso que chamam de revolucionário, inovador, esperançoso – nada além de um velho padrão político que volta e meia reaparece com tintas diferentes. Dura por um tempo, entrega benefícios imediatistas e, no médio prazo, quebra o país. Normalmente, o que é mais dramático, deixa um lastro de desemprego, endividamento, corrupção e vulnerabilização da própria democracia.

Mas o povo é livre, e a democracia prevê a rotatividade dos grupos políticos no poder. Tomara que, por uma inspiração qualquer, Petro contrarie todo o mapa predefinido das ideias em que sempre acreditou. Essa pode ser a melhor esperança que a Colômbia pode ter.

Cleber Benvegnú é sócio-fundador da agência Critério, jornalista, advogado e especialista em gestão de imagem e reputação. Foi secretário de Estado da Comunicação e Chefe da Casa Civil do RS. Consultor político, é membro do CAMP (Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político).

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Última atualização por Márcio Juliboni - 24/06/2022 - 12:14

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