Arrecadação bate recorde em setembro, mas perde fôlego e acende alerta para meta fiscal, diz XP
A arrecadação federal somou R$ 239,384 bilhões em setembro. Trata-se do maior valor para o mês desde o início da série histórica, em 2000, informou a Receita Federal nesta quinta-feira (22). O resultado representa um crescimento de 5,62% acima da inflação na comparação com setembro de 2025.
Apesar do recorde, a XP Investimentos avalia que a arrecadação começa a perder força com a desaceleração da economia, mesmo com o impulso dos preços mais elevados do petróleo e das medidas de aumento de receitas.
“Os resultados recentes indicam perda de força na margem, em grande medida refletindo uma atividade econômica mais fraca”, afirma a equipe de macroeconomia da casa.
O valor arrecadado em setembro ficou praticamente em linha com a mediana das estimativas do mercado, de R$ 239,64 bilhões, segundo pesquisa do Projeções Broadcast. A XP esperava R$ 239 bilhões.
No acumulado do ano, a arrecadação alcançou R$ 2,351 trilhões, com crescimento real de 7%, de acordo com os dados apresentados pela XP. Em 12 meses, o montante chegou a R$ 3,132 trilhões, uma expansão de 6,2%.
Petróleo e aumento de impostos sustentam receitas
Na avaliação da XP, grande parte do avanço da arrecadação neste ano está associada a medidas de aumento de receitas, como a elevação das alíquotas do imposto de importação sobre bens de capital, a tributação das exportações de petróleo e a redução de benefícios tributários.
Em setembro, o imposto de exportação de petróleo arrecadou R$ 2,943 bilhões, levando o total no ano a R$ 12,869 bilhões. A alíquota de 12% foi criada, segundo o governo, para garantir o abastecimento de petróleo no país durante a guerra no Oriente Médio.
Esse recolhimento, ao lado dos R$ 3,7 bilhões obtidos com a Cide sobre remessas ao exterior, ajudou a impulsionar o grupo de outras receitas administradas pela Receita Federal, que cresceu 63,7% em termos reais ante setembro de 2025, segundo a XP.
Já a arrecadação com o imposto de importação avançou 21,1%, movimento que a casa atribui ao aumento das alíquotas sobre bens de capital — máquinas e equipamentos utilizados na produção.
Na divisão por setores, excluídas as receitas previdenciárias, o recolhimento da atividade de extração de petróleo e gás natural saltou 1.221% na comparação anual. A XP ressalta, porém, que esse avanço reflete tanto os preços mais altos do petróleo quanto a reclassificação das atividades de uma empresa do setor.
Mercado de trabalho ajuda, mas outros tributos perdem força
A Receita Previdenciária também contribuiu para o resultado de setembro, com recolhimento de R$ 64,588 bilhões, uma alta real de 6,18% sobre um ano antes.
Segundo a Receita Federal, o desempenho está associado à expansão de 1,72% da massa salarial de agosto em relação ao mesmo mês de 2025, além do aumento real de 7,42% na arrecadação do Simples Nacional. Para a XP, os números refletem um mercado de trabalho ainda robusto.
O IRPJ e a CSLL, tributos que incidem sobre o lucro das empresas, somaram R$ 29,820 bilhões, com crescimento real de apenas 1,06%. A XP cita o desempenho desses tributos e do PIS/Cofins como sinais de uma atividade econômica mais fraca.
Já o Imposto de Renda Retido na Fonte sobre rendimentos de capital arrecadou R$ 12,061 bilhões, alta real de 9,87%. Segundo a Receita, o resultado foi favorecido pela tributação de dividendos a partir de 2026 e pelo aumento nominal de 9,68% no recolhimento sobre aplicações de renda fixa de pessoas físicas e jurídicas.
Na direção contrária, o IRRF sobre rendimentos do trabalho recuou 6,7% em termos reais, segundo a XP, refletindo a isenção para rendimentos mensais de até R$ 5 mil.
O IOF, por sua vez, arrecadou R$ 8,041 bilhões, queda real de 9,06%. A casa avalia que o movimento pode estar relacionado a uma redução nas concessões de crédito.
Desaceleração aumenta riscos para a meta fiscal
Para os próximos meses, a XP espera que a arrecadação continue robusta, mas com um ritmo menor de crescimento. A avaliação é que a moderação da atividade econômica pressione as receitas no último trimestre de 2026 e em 2027, enquanto os preços do petróleo compensem apenas parte desse efeito.
“A arrecadação relacionada ao setor de petróleo continua registrando crescimento relevante, embora insuficiente para sustentar o ritmo anterior de expansão”, afirma a equipe.
A projeção da XP é de uma arrecadação de R$ 3,214 trilhões em 2026, o equivalente a uma alta real de 6,6%.
O cenário exige atenção às contas públicas. Segundo a casa, uma arrecadação mais forte será essencial para o governo cumprir a meta de resultado primário – o saldo entre receitas e despesas, sem considerar os juros da dívida.