As sete ‘nem tão’ magníficas: Conta da IA é vista como alta demais pelos investidores e impaciência domina sentimento; leia análise
A temporada de resultados começa a perder força no fim desta semana. Cada setor deve agora fazer o “balanço dos balanços” do quarto trimestre de 2025 (4T25). Como não poderia deixar de ser, a joia da coroa das bolsas americanas é o setor de inteligência artificial (IA) e suas Sete Magníficas.
O grupo das sete maiores empresas do mundo são coincidentemente do ramo de tecnologia e moram nos Estados Unidos: Apple (AAPL), Microsoft (MSFT), Amazon (AMZ), Alphabet (dona do Google, GOOGL), Meta (META), Nvidia (NVDA) e Tesla (TSLA).
Essas empresas correspondem a algo em torno de 28% a 35% do índice S&P 500, chegando a algo entre 40% e 62% no índice Nasdaq 100, a depender da metodologia de análise.
E o momento é bastante delicado para essas empresas. Afinal, desde a temporada passada, os investidores começaram a mostrar impaciência com os gastos (capex) cada vez mais volumosos em teses relacionadas à IA. A questão é saber quando os investimentos começarão a dar os retornos prometidos a partir de agora.
Veja a seguir o balanço desta temporada para as principais empresas de tecnologia do mundo.
Demanda por IA segue fortalecida, mas…
Começando pela pedra angular desse mercado, o balanço da Nvidia (NVDA) foi o último a ser publicado nesta temporada.
Os resultados da empresa vieram acima do consenso do mercado, mostrando uma demanda fortalecida por teses relacionadas à infraestrutura de inteligência artificial. O próprio CEO da empresa, Jensen Huang, reafirmou o otimismo com uma projeção de receitas também acima do esperado.
Em resumo, o sinal da principal empresa do ramo de IA é de que a demanda segue firme e os negócios continuam resilientes, apesar das preocupações do mercado.
Um ponto a ser levado em conta é a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, que se arrasta desde o primeiro mandato do presidente Donald Trump, em 2017.
A troca de farpas pública entre os governos da China e dos EUA gerou uma série de barreiras tecnológicas por parte de ambos os países, com a Nvidia no centro dessa disputa. Isso gerou uma série de restrições para a empresa, além da obrigatoriedade de atender a diversas novas métricas de segurança.
Ainda que a perspectiva imediata seja de um arrefecimento da disputa, o que consequentemente abre espaço para a companhia gerar receitas a partir dos negócios com a China, este é um ponto de atenção importante.
Veja como foram outros balanços das big techs nesta temporada:
Microsoft (MSFT)
A Microsoft divulgou resultados do segundo trimestre fiscal com números praticamente em linha com as expectativas. A receita somou US$ 81,3 bilhões, alta de 17% na comparação anual e levemente acima da projeção de US$ 80,27 bilhões.
O Azure, principal motor de crescimento, registrou avanço de 39%, também um pouco acima da estimativa de 38,8%. Antes do balanço, analistas esperavam receita próxima de US$ 80,3 bilhões (+15,3% ao ano) e lucro ajustado por ação (EPS) de US$ 3,92, ante US$ 3,72 no trimestre anterior. A companhia vem superando as estimativas de receita há dois anos, com desvio médio positivo de 1,9%.
Apesar do desempenho sólido, o mercado reagiu negativamente diante da crescente cautela com o retorno dos pesados investimentos em inteligência artificial. Investidores passaram a questionar a capacidade de reaceleração do crescimento, especialmente no Azure, além de monitorar de perto capex e margens.
A exposição à OpenAI — da qual a Microsoft detém cerca de 27% — também preocupa, já que as perdas crescentes da startup podem pressionar os resultados futuros da gigante de tecnologia.
Amazon (AMZ)
No balanço da Amazon, a companhia reportou lucro ajustado por ação (EPS) de US$ 1,95, levemente abaixo do consenso de US$ 1,97, segundo a FactSet. Já a receita somou US$ 213,4 bilhões, acima da expectativa de US$ 211,4 bilhões.
A pressão sobre as ações veio principalmente do anúncio de um robusto plano de US$ 200 bilhões em investimentos, com foco em data centers, valor que supera em mais de US$ 50 bilhões as estimativas dos analistas e representa forte aceleração frente ao capex do ano anterior.
O CEO Andy Jassy afirmou estar confiante em um “forte retorno sobre o capital investido” na divisão de nuvem, mas sem detalhar o prazo. O movimento ocorre em meio a um contexto de maior cautela com os gastos em inteligência artificial, intensificados desde o sucesso da OpenAI com o ChatGPT, o que já levou a uma perda de mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado das big techs na última semana.
Alphabet (dona do Google, GOOGL)
A Alphabet, controladora do Google, reportou resultados acima das estimativas de Wall Street. O lucro por ação (EPS) foi de US$ 2,82, superando o consenso de US$ 2,63 e avançando frente aos US$ 2,15 registrados um ano antes.
A receita trimestral somou US$ 113,8 bilhões, acima da expectativa de US$ 111,3 bilhões, representando alta anual de 18%.
O desempenho foi impulsionado principalmente pelo Google Services, cuja receita cresceu 14%, para US$ 95,9 bilhões, com destaque para avanços de 17% na busca, 17% em assinaturas, plataformas e dispositivos e 9% em anúncios do YouTube. Já o Google Cloud registrou crescimento de 48%, para US$ 17,7 bilhões, refletindo a forte demanda por infraestrutura e soluções de IA empresarial no Google Cloud Platform (GCP).
Segundo o CEO Sundar Pichai, a companhia superou US$ 400 bilhões em receita anual pela primeira vez, enquanto o aplicativo Gemini alcançou mais de 750 milhões de usuários ativos mensais, reforçando o avanço da estratégia em inteligência artificial.
Meta (META)
A Meta registrou lucro líquido de US$ 22,8 bilhões no 4T25, alta de 9% na comparação anual. No acumulado de 2025, porém, o lucro somou US$ 60,5 bilhões, queda de 3% frente a 2024, pressionado pelo aumento dos investimentos em inteligência artificial.
A receita trimestral atingiu US$ 59,9 bilhões, avanço de 24%, enquanto no ano fechado o faturamento chegou a US$ 201 bilhões, crescimento de 22%. O desempenho foi sustentado pela família de aplicativos, com melhora no volume e no preço dos anúncios.
As despesas totais saltaram 40% no 4T25, para US$ 35,1 bilhões, e 24% no ano, para US$ 117,7 bilhões, refletindo maiores gastos com P&D, data centers e infraestrutura de IA.
Ainda assim, o lucro operacional foi de US$ 24,7 bilhões no trimestre (+6%), com margem de 41%, e US$ 83,3 bilhões no ano (+20%). A empresa encerrou dezembro com US$ 81,6 bilhões em caixa e US$ 58,7 bilhões em dívida de longo prazo, mantendo posição líquida positiva mesmo após intensificar investimentos.
Tesla (TSLA)
No 4T25, a Tesla reportou receita total de cerca de US$ 24,9 bilhões, uma queda anual de aproximadamente 3%, mas ainda acima das estimativas de mercado.
O lucro líquido foi de cerca de US$ 840 milhões, o que representa uma redução de mais de 60% em relação ao 4T24, reflexo de pressões de margem e ajustes na receita de créditos regulatórios.
Em termos de lucro por ação (EPS), a empresa registrou US$ 0,50 por ação ajustado, superando a previsão de US$ 0,45, o que agradou investidores apesar dos desafios no negócio principal de veículos elétricos.
A Tesla anunciou um forte aumento de capex para 2026, com mais de US$ 20 bilhões planejados, boa parte direcionada à expansão de sua infraestrutura de IA, incluindo o desenvolvimento de clusters como “Cortex 2” e silício proprietário (“Terafab”), além de um investimento de cerca de US$ 2 bilhões em xAI, empresa de inteligência artificial liderada por Elon Musk.
Apple (AAPL)
A Apple reportou lucro líquido de US$ 42,1 bilhões no primeiro trimestre fiscal de 2026, com lucro diluído por ação (EPS) de US$ 2,84, alta de 19% na comparação anual e acima da expectativa de US$ 2,68, segundo a FactSet.
A receita trimestral somou US$ 143,8 bilhões, crescimento de 16% sobre o mesmo período do ano anterior e superior à projeção de US$ 138,4 bilhões.
O desempenho foi impulsionado pelo lançamento da linha 17 do iPhone, com recorde de receita no segmento de telefones, de US$ 49,02 bilhões, além de recorde histórico em serviços, de US$ 28,75 bilhões. As vendas totais de iPhones alcançaram US$ 85,3 bilhões, avanço de 23% ano a ano e acima dos US$ 78,2 bilhões estimados pelo mercado.