Supercomputador do passado já pertenceu à realeza indiana — e agora vai a leilão no Reino Unido
Um supercomputador portátil desenvolvido há mais de 400 anos está em exibição em Londres e será leiloado, ainda nesta semana, na casa de leilões Sotheby´s.
Esse supercomputador do passado é um astrolábio de latão nunca exibido antes e que, segundo especialistas da casa, talvez seja o maior já conhecido. O objeto projetava o universo tridimensional do século XVII em apenas duas dimensões.
A peça era conhecida por integrar a coleção real de Sawai Man Singh II, o último marajá a reinar em Jaipur — território que atualmente pertence ao estado indiano do Rajastão. Após a morte do monarca em 1970, o objeto foi herdado por sua esposa, que mais tarde o vendeu.
Apesar de histórico, a Sotheby´s afirma que o supercomputador permanece impecável visualmente, e que deve atrair grande interesse de museus e colecionadores. A expectativa é de que ele alcance £ 2,5 milhões, quantia equivalente a cerca de R$ 18 milhões).
A tecnologia a frente do tempo
Um astrolábio é uma espécie arcaica e portátil de computador, criado e utilizado por astrônomos da antiguidade para diversos fins. Ele é composto por camadas interligadas de discos metálicos.
Historiadores comparam os astrolábios aos smartphones modernos, pois são capazes de desempenhar diversas funções: calcular o horário do nascer e do pôr do sol, medir altitudes, latitudes, distâncias e profundidades, mapear o céu e as cidades — e até ajudar na elaboração de horóscopos.
Os primeiros astrolábios foram desenvolvidos na Grécia Antiga, no século II a.C., mas foi somente no século VIII que se espalharam e passaram a ser produzidos por todo o oriente médio islâmico.
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A história por trás do astrolábio
Esse “supercomputador” em específico foi feito no início do século XVII em Lahore, no atual Paquistão. Era parte do Império Mogol, que governou parte do subcontinente indiano entre os séculos XVI e XIX.
Na época, a cidade era um importante polo de fabricação de astrolábios no mundo mogol, onde a corte demonstrava um crescente interesse em astronomia e astrologia.
O objeto foi criado por dois irmãos, Qa’im Muhammad e Muhammad Muqim, alunos da “Escola de Lahore” — um dos centros mais renomados de produção de astrolábios da época — e encomendado por Aqa Afzal, quem governava a cidade de Lahore.
No pedido, o nobre mogol exigiu que o astrolábio tivesse grandes proporções. Por isso, ele chega a ter 30 cm de diâmetro, 46 cm de altura e pesar 8,2 kg, o equivalente a quatro vezes o tamanho de uma peça típica da Índia no século XVII.
Após a queda do Império Mogol, os instrumentos científicos excepcionais eram tratados como bens de prestígio, equivalentes a joias e raridades. Por isso, circulavam entre as elites como herança, trocas, ou aquisições para coleções reais.
Assim, o astrolábio migrou para a coleção real da cidade de Jaipur antes do século XX e passou a ser guardado como patrimônio da corte. Quando Sawai Man Singh II assumiu o reino, ele herdou a peça e permaneceu possuindo-a mesmo após deixar o trono, em 1949, com a independência da Índia.
Em 1970, quando o marajá faleceu, o instrumento foi herdado por sua viúva, Maharani Gayatri Devi. No entanto, ela o vendeu ainda em vida para uma coleção particular após o fim de seus privilégios reais.
Peculiaridade acima da utilidade
O astrolábio em questão é muito mais do que uma “simples” ou comum ferramenta. Trata-se de um instrumento “de ponta”, complexo e relevante tanto científica quanto cultural e artisticamente.
Segundo a Sotheby’s, a peça contém a marcação da latitude e da altitude de 94 cidades diferentes, além de 38 ponteiros de estrelas e divisões de grau extremamente finas. Esses detalhes demonstram uma precisão técnica e um conhecimento geográfico muito avançados para a época.
Os nomes das estrelas aparecem inscritos em persa e em sânscrito — uma língua ancestral indiana —, o que indica que o objeto nasceu do encontro entre as culturas islâmica, persa e indiana. Isso o faz tornar-se um símbolo da troca de conhecimento entre civilizações.
Além disso, o astrolábio apresenta um acabamento refinado e uma estética elaborada, que o tornam belo e não apenas funcional. Esse cuidado com a aparência diferencia-o de astrolábios anteriores, que muitas vezes se limitavam ao uso prático, sem grande preocupação artística.
Esse conjunto de características evidencia o quanto a corte mogol valorizava a ciência em consonância com a convivência cultural e com uma estética sofisticada, e justifica o porquê de a raridade ser leiloada por um valor tão alto.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.