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Aumento do desemprego embala valorização das bolsas nos EUA

13 jul 2020, 17:16 - atualizado em 13 jul 2020, 17:16
Indústria Emprego
“Parece um pouco insensível, mas é sempre assim na recessão e é a realidade, as empresas cortam custos para escapar de recessões nos lucros”, disse Adams (Imagem: Reuters/Stephen Lam)

Não é preciso procurar muito para encontrar demonstrações do sangue frio dos investidores do mercado acionário. As mais recentes envolvem os potenciais benefícios do aumento do desemprego sobre os lucros corporativos.

O entendimento de que as demissões estão preparando o terreno para uma rápida recuperação dos lucros vem se disseminando.

Segundo essa lógica, uma estrutura de custos mais enxuta permitirá que as empresas lucrem mais em cima das vendas quando a economia se recuperar.

Embora a teoria pareça ignorar o sofrimento de milhões de americanos desempregados, há precedentes — incluindo a última recessão, que antecedeu 11 anos de valorização do mercado.

A desumanização já é uma narrativa inevitável do movimento atual das bolsas, puxado por ações de companhias gigantescas otimizadas por algoritmos e donas de poucos ativos, que sobem mesmo enquanto o vírus castiga a economia.

Mike Wilson, estrategista de renda variável do Morgan Stanley, levantou recentemente a ideia de que um ritmo lento de recontratação poderia estimular melhorias na chamada alavancagem operacional e embalar uma recuperação mais rápida do que se espera nos lucros.

Para Gina Martin Adams, estrategista da Bloomberg Intelligence, a eliminação de empregos significa menor consumo, mas também facilita uma rápida recuperação nos lucros.

“Parece um pouco insensível, mas é sempre assim na recessão e é a realidade, as empresas cortam custos para escapar de recessões nos lucros”, disse Adams.

“A redução de despesas contribui para a expansão das margens das empresas, o que deve permitir estabilização na perspectiva para os lucros.”

Os estrategistas de ações fazem seu papel ao apontar esses desdobramentos, mas o cenário que descrevem está alinhado com algumas suspeitas sobre o sistema de valores de Wall Street — sobretudo que os ricos ficam mais ricos às custas dos pobres e as empresas priorizaram o acionista em detrimento do bem-estar do funcionário.

Essas questões existem há décadas e têm ganhado atenção renovada em meio à pandemia de Covid-19 e aos protestos após a morte de George Floyd.

As bolsas tiveram uma das maiores altas em décadas, com seu valor de mercado aumentando em até US$ 10 trilhões desde o nível mínimo atingido em março. Toda essa criação de riqueza — equivalente a metade do PIB dos EUA — beneficia os acionistas, que são geralmente as pessoas mais abastadas da sociedade.

Não é fácil estimar o aumento exato dos lucros, mas uma maneira é acompanhar as margens, que medem o lucro como percentual da receita. Segundo projeções de analistas compiladas pela Bloomberg Intelligence, as margens provavelmente atingiram um piso de 9,4% no segundo trimestre, saltaram para 13% e ficarão acima de 10% no próximo ano.

Demissões em massa reacenderam um debate de longa data sobre o modelo de negócios focado no investidor, que, segundo críticos, coloca os lucros acima do bem-estar dos funcionários e da sociedade como um todo.

No ano passado, Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, e outros líderes de grandes empresas americanas prometeram moderar essa abordagem. Durante a fase de recordes do mercado acionário que terminou no começo deste ano, houve momentos em que a diferença entre a alta do S&P 500 e os ganhos salariais foi a maior em décadas.

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