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Banco da Inglaterra sinaliza divisão sobre juros negativos

30 nov 2020, 16:09 - atualizado em 30 nov 2020, 16:09
Banco da Inglaterra
O presidente do BOE, Andrew Bailey, expressou tom semelhante e questionou se os sistemas de computador podem lidar com números negativos (Imagem: Reuters/Toby Melville)

Cresce a divisão no Banco da Inglaterra em meio ao debate se as taxas de juros devem ficar abaixo de zero pela primeira vez.

É o que reflete a matemática dos nove membros do Comitê de Política Monetária: os chamados “internos” do painel com funções operacionais no banco central dão mais sinais de resistência à medida. A minoria dos representantes “externos” tende a ser mais aberta à política monetária abaixo de zero.

“Há uma divisão no Comitê de Política Monetária entre internos e externos sobre juros negativos, e acho que isso tem sido um fator-chave no atraso do Banco da Inglaterra para estímulos adicionais”, disse Robert Wood, economista-chefe para o Reino Unido no Bank of America Merrill Lynch e ex-funcionário do BOE.

Essas divergências ajudam a explicar a abordagem lenta da instituição em relação aos juros abaixo de zero na batalha intelectual sobre como ajudar a abalada economia do Reino Unido além do estímulo atual. Embora todos concordem que a medida deve estar na caixa de ferramentas, o que tem sido destacado há meses, o BOE adiou a decisão ao solicitar um estudo sobre a preparação do setor financeiro para tal política.

Dave Ramsden, que como vice-presidente de mercados e bancos seria fundamental para qualquer mudança, pediu cautela, minimizando a possibilidade de que a decisão seja iminente e citando a necessidade de envolvimento dos bancos.

O presidente do BOE, Andrew Bailey, expressou tom semelhante e questionou se os sistemas de computador podem lidar com números negativos. Os vice-presidentes Ben Broadbent e Jon Cunliffe também mostraram cautela, enquanto até o economista-chefe Andy Haldane, normalmente imprevisível, insistiu que é necessário tempo para estudar o assunto.

Isso deixou os chamados externos, especialmente acadêmicos, como as vozes que mais apoiam a nova política. Silvana Tenreyro, segundo a qual há evidências de que juros abaixo de zero têm sido eficazes, reiterou esse ponto na segunda-feira, acrescentando que a rentabilidade dos bancos não é um obstáculo.

Jonathan Haskel também citou pesquisas segundo as quais a política funciona em outros países, enquanto Gertjan Vlieghe disse que juros abaixo de zero não são contraproducentes e que as autoridades deveriam tentar aumentar o espaço de ação. Michael Saunders fará um discurso na sexta-feira intitulado “Algumas Opções de Política Monetária – Caso Mais Suporte seja Necessário”.

O BOE evitou seguir o Banco Central Europeu com juros negativos devido à preocupação com o impacto sobre os bancos. Mas com a taxa básica agora na mínima histórica de 0,1% para ajudar a economia, flexibilização quantitativa em pleno andamento e relações comerciais pós-Brexit no horizonte, talvez seja inevitável a reavaliação da política.

Investidores reduziram apostas em juros negativos nos últimos meses. Já não precificam um corte abaixo de zero em 2021, sendo que antes projetavam tal medida no primeiro semestre do ano que vem.