Bolha da IA à vista? Focar só em múltiplos pode enganar investidores, diz estrategista do Santander
A bolha da inteligência artificial foi um dos grandes temores do mercado em 2025, mas, até agora, as empresas continuam firmes e fortes.
Apesar de alertas de grandes investidores, como Ray Dalio, especialistas descartaram, por hora, que os preços das empresas de tecnologia, inflacionadas pelo investimento em tecnologia, sejam insustentáveis.
“Olhar múltiplos isoladamente pode passar uma mensagem errada. Está caro? Está barato? Em que contexto macro? Em que país? Em que setor? Quando você amplia a análise, ela fica mais completa”, destaca o estrategista do Santander Caio Camargo, no evento do Onde Investir em 2026, do Seu Dinheiro, portal parceiro do Money Times.
Ele recorda que o ganho de produtividade ainda é difícil de mensurar. Atividades que demoravam horas, hoje conseguem ser resolvidas em minutos.
“Vimos ações ligadas à IA subindo dois dígitos com juros americanos a 5%. Isso muda completamente o contexto. Imagina com juros mais baixos. Então, eu acho que estamos mudando um ciclo econômico que pode trazer ainda mais surpresas positivas”.
Ainda segundo Camargo, o investidor precisa ter noção de que não é mais simplesmente comprar uma ação porque está subindo. É preciso conhecer os nomes, entender a tese.
“Então, sim, IA pode ter excessos pontuais, mas é uma discussão que ainda precisa de tempo”, diz Camargo.
Parte do incômodo do mercado recai no tamanho dos investimentos das empresas. As big techs triplicaram seus investimentos anuais de capital: de US$ 150 bilhões, em 2023, para uma projeção de US$ 500 bilhões ou mais, em 2026, com aportes em IA contribuindo mais para o crescimento do PIB norte-americano do que o consumo neste ano.
Que bolha?
Mário Nevares, head de investimentos internacionais da G5 Partners, segue no mesmo caminho que Camargo ao afirmar que o ciclo atual de investimentos em inteligência artificial está longe de caracterizar uma bolha, sobretudo pela forma como as grandes empresas têm financiado essa expansão.
Segundo ele, diferentemente de outros períodos de euforia do mercado, as companhias líderes do setor estão usando o próprio fluxo de caixa para bancar os aportes em tecnologia, sem recorrer a níveis excessivos de endividamento.
“Se você pega as principais companhias, elas estão usando o próprio lucro para esses investimentos. Não estão saindo para tomar dívida em números astronômicos”, afirma.
Nevares pondera, no entanto, que a discussão sobre a lucratividade do capex ainda deve ganhar força nos próximos anos. Embora o potencial seja elevado, o retorno desses investimentos permanece incerto.
“Vai chegar um momento em que a gente vai discutir o quanto esse capex é lucrativo. Pode ser muito lucrativo, mas a verdade é que ainda não sabemos como isso vai se desdobrar”, diz.
Para ilustrar essa incerteza, o executivo cita o próprio ChatGPT. “Você usa a ferramenta, mas não vê nenhuma marca ali dentro. Nunca foi usado como vitrine de marca. Isso mostra que ainda não está claro como a monetização vai acontecer em larga escala”, explica.
Apesar disso, Nevares reforça que os fundamentos seguem sólidos. Na avaliação dele, os números afastam a tese de bolha, especialmente quando se observa o desempenho das chamadas ‘Magnificent Seven’.
“Se você compara o múltiplo das Mag-7 do fim de 2024 para o fim de 2025, ele é praticamente o mesmo. E, nesse período, as empresas entregaram um crescimento médio de lucro de cerca de 25%”, afirma.
Isso não elimina, porém, a possibilidade de correções no mercado. Para o head da G5 Partners, quedas fazem parte do ciclo natural da bolsa e não devem ser confundidas com estouro de bolha.
“A bolsa pode cair 10% ou 15%. Isso é normal, é ajuste. Pode acontecer por inflação mais alta, questões geopolíticas ou relações comerciais com a China. Mas isso não caracteriza uma bolha”, diz.
Outro ponto de atenção, segundo Nevares, é a velocidade dos investimentos em capex e os gargalos estruturais que surgem junto com esse movimento, como a demanda por energia, o que tem impulsionado aportes em infraestrutura, especialmente nos Estados Unidos.
“É um período super interessante. A gente está vendo uma mutação da indústria, do mercado e até do comportamento das pessoas. Coisas boas podem vir, mas com volatilidade”, conclui.
Bolha da internet dá bom parâmetro
Já para Enzo Pacheco, estrategista da Empiricus, a comparação com a bolha da internet no início dos anos 2000 ajuda a colocar o atual rali das ações ligadas à inteligência artificial em perspectiva — e, na avaliação dele, o mercado ainda não vive um excesso generalizado.
Naquela época, lembra Pacheco, o mercado passou cerca de cinco anos seguidos entregando retornos de dois dígitos. “Era uma toada praticamente contínua, com o mercado saindo de níveis muito baixos para patamares extremamente elevados”, disse.
Mesmo assim, o período não foi linear. Ao longo do caminho, houve crises relevantes — México, tigres asiáticos e Rússia — que trouxeram volatilidade, mas não interromperam a tendência estrutural de alta impulsionada pela força da internet.
A grande diferença, segundo Pacheco, está nos valuations e na qualidade das empresas que lideram o mercado hoje. No auge da bolha das .com, companhias tradicionais chegaram a negociar a múltiplos considerados insustentáveis.
Já no atual ciclo, mesmo empresas frequentemente citadas como caras passaram por ajustes. A Nvidia (NVDA), símbolo da corrida da IA, chegou a negociar entre 60 e 70 vezes lucro há dois ou três anos. Depois disso, com forte crescimento de resultados, voltou para a faixa de 20 a 30 vezes.
Para Pacheco, o fato de o mercado já estar no terceiro ano consecutivo de fortes retornos não implica, necessariamente, um esgotamento estrutural do movimento.
“Esse ponto de a gente já estar há muito tempo vendo o mercado se valorizar — porque já está no terceiro ano de retorno de dois dígitos — não me faz comprar a ideia de que estamos em um momento de realização forte”, afirmou.
Correções, segundo ele, fazem parte do funcionamento normal do mercado. Em 2025, por exemplo, o mercado global passou por uma realização próxima a 20%, puxada por fatores macro e ruídos tarifários. “De certa forma, foi um reset dentro de uma tendência de alta mais ampla”, disse.
Pacheco ressalta que, apesar de não haver uma bolha generalizada, há excessos pontuais. Um exemplo recente no mercado internacional foi a CoreWeave, empresa ligada à Nvidia e focada em aluguel de processamento para IA.
Após estrear com valuations muito altos, a ação saiu de cerca de US$ 180 para US$ 70, refletindo dúvidas sobre a capacidade de rentabilizar os investimentos feitos.
“Existem ações específicas que podem estar em terreno bolhoso. Mas isso é diferente de dizer que o mercado como um todo está numa bolha”, afirmou.
O valuation do S&P 500, atualmente em torno de 22 vezes lucro, também entra nessa conta. Para Pacheco, não é um nível barato, mas está longe de um extremo que justifique falar em bolha generalizada. “Esse valuation já está aí há dois ou três anos. O mercado realiza, mas depois volta para cima das 20 vezes”, diz.
Na avaliação dele, usar a média histórica de valuation do índice como parâmetro pode ser enganoso. “As empresas de hoje são totalmente diferentes das de 50 anos atrás. São mais lucrativas, mais rentáveis e geram muito mais resultado para o acionista”, disse.