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CDBs, CRIs e CRAs: Com queda dos juros no radar, renda fixa atrelada ao IPCA ganha espaço em 2026

20 jan 2026, 8:05 - atualizado em 20 jan 2026, 8:03
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O ano de 2026 deve marcar uma virada importante para a renda fixa brasileira, com o início de um ciclo de queda dos juros, após um período prolongado de juros elevados. E isso mudará como gestores e investidores têm de se posicionar em ativos como CDBs, CRIs e CRAs.

A avaliação é compartilhada por gestores e estrategistas ouvidos pela reportagem, que apontam a desaceleração da atividade econômica e uma melhora gradual das expectativas de inflação como os principais gatilhos para o início dos cortes da Selic, ainda que o ritmo e a extensão desse movimento sigam condicionados ao cenário fiscal e político.

Na avaliação de Alexandre Cancherini, sócio e gestor da Galapagos Capital, o ponto de partida para o ciclo de cortes deve ocorrer já no primeiro trimestre. “Diferente de 2025, 2026 será marcado pelo início de um ciclo de flexibilização monetária, apoiado na moderação da atividade econômica e no movimento parcial de reancoragem das expectativas de inflação”, afirma.

A visão, no geral, é que a trajetória dos juros seguirá altamente dependente da evolução fiscal em um ambiente de elevada incerteza política.

Esse pano de fundo macro cria, na visão do gestor, oportunidades mais atrativas na renda fixa, especialmente em títulos indexados à inflação. “Esses papéis combinam juros reais elevados, proteção do poder de compra e potencial de valorização em cenários de maior credibilidade fiscal”, diz Cancherini.

Ainda que os prefixados, segundo ele, possam se beneficiar do fechamento da curva de juros, a preferência da Galapagos está concentrada nos prazos intermediários, preservando flexibilidade diante dos riscos políticos e fiscais.

Na Nest Asset Management, o economista-chefe Rodrigo Marques avalia que os pós-fixados seguem exercendo um papel relevante nas carteiras em 2026, sobretudo por oferecerem liquidez e ajudarem a reduzir a em um ambiente doméstico e internacional imprevisível, às vésperas das eleições presidenciais por aqui.

“Mesmo com a expectativa de queda dos juros, o carrego dos pós-fixados permanece atrativo no curto prazo e funciona como um amortecedor de risco”, afirma Marques.

Ainda assim, ele também destaca que os títulos atrelados ao IPCA estão bastante atrativos, especialmente nos vencimentos intermediários.

“Eles oferecem um bom equilíbrio entre retorno e sensibilidade à curva de juros, combinando taxas reais ainda elevadas, acima de 7% ao ano, com proteção contra eventuais pressões inflacionárias”, diz.

Os prefixados entram no radar de forma mais tática, concentrados nos prazos mais curtos, evitando exposição excessiva à volatilidade dos vencimentos longos.

A preferência pelo IPCA+ também é compartilhada pela Empiricus. Para Laís Costa, analista de renda fixa da casa, esse indexador oferece a melhor relação risco-retorno para o investidor pessoa física, desde que acompanhado de uma escolha cuidadosa de prazos.

“O IPCA+ para médio e longo prazo é o nosso top pick do ano. Ele protege contra choques inflacionários e fiscais e ainda oferece um nível de juros reais muito elevado”, afirma.

Segundo ela, a recomendação da casa privilegia CDBs IPCA+ entre três e cinco anos, enquanto prefixados ficam restritos a prazos mais curtos, de até três anos.

Crédito privado e a queda da Selic

No mercado de crédito privado, há consenso de que a queda da Selic impacta mais o risco do que o retorno dos ativos.

Para Cancherini, o carrego do crédito segue determinado principalmente pelo spread contratado no momento da alocação. “A flexibilização monetária tende a melhorar as condições financeiras das empresas, reduzir o custo de capital e aliviar pressões sobre fluxo de caixa e alavancagem, contribuindo para uma diminuição do risco de crédito ao longo do tempo”, afirma.

No caso dos CDBs, os gestores veem os papéis ainda competitivos no início de 2026, mas com perda gradual de atratividade ao longo do ano.

“Eles seguem relevantes como instrumentos de liquidez, mas com uma relação risco- retorno menos favorável quando comparados a outras alternativas da renda fixa”, diz Cancherini.

Com a Selic perto do pico, o CDI tende a oferecer basicamente o rendimento contratado, sem potencial de ganho adicional via marcação a mercado com a queda dos juros. Ao mesmo tempo, prefixados e IPCA+ passaram a concentrar o upside com a perspectiva de queda dos juros, deslocando a melhor relação risco-retorno para essas alternativas.

CRIs e CRAs

Nos mercados de CRIs e CRAs, a atenção dos investidores tem se voltado cada vez mais para a combinação entre setor, originador e estrutura.

Para Lucas Constantino, estrategista-chefe da GCB, não há um único fator dominante de risco nesse tipo de operação. “O risco se materializa pela interação entre o perfil do originador, a dinâmica do setor e a estrutura do papel. É essa combinação que determina se o prêmio pago faz sentido”, afirma.

Segundo ele, mesmo em um cenário de juros em queda, os papéis isentos seguem atrativos, mas exigem diligência redobrada para garantir que os mitigadores de risco — como garantias, regras contratuais e o fluxo de pagamento — sejam compatíveis com o retorno oferecido.

Nesse universo, os prazos também ganham relevância. Em CRIs atrelados ao IPCA, os gestores tendem a preferir vencimentos intermediários, compatíveis com o fluxo de caixa dos projetos imobiliários.

Nos CRAs, a cautela é maior, dada a natureza mais cíclica do agronegócio, que ainda se recupera de uma bateria de recuperações judiciais. Isso reforça a busca por estruturas sólidas e prazos que não ampliem excessivamente o risco de crédito.

Em termos setoriais, a infraestrutura aparece como o segmento mais resiliente para 2026, impulsionada por incentivos regulatórios, novas estruturas de financiamento e demanda estrutural por capital.

O setor imobiliário tende a responder mais rapidamente ao corte de juros, enquanto o agronegócio ainda enfrenta desafios, com risco de crédito elevado e impacto de juros ainda altos sobre a rentabilidade dos produtores.

No conjunto, o consenso entre gestores é que 2026 deve combinar oportunidades relevantes na renda fixa com maior rigor na seleção dos ativos.

Com a perspectiva de queda dos juros, o foco deixa de ser apenas a busca por taxa para a ser construção de carteiras equilibradas, com preferência por IPCA+ em prazos intermediários, uso tático de prefixados curtos e manutenção dos pós-fixados como instrumentos de liquidez e controle de risco.

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Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja.
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja.

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