Chuva de dinheiro mobiliza população após queda de avião na Bolívia, mas governo manda queimar tudo
O céu de El Alto, na Bolívia, protagonizou uma cena na última sexta-feira (27) que poderia ser digna de uma comédia espirituosa, mas se provou um thriller de terror urbano. Após um avião da Força Aérea Boliviana sair da pista durante o pouso e atingir uma avenida movimentada, uma chuva de cédulas de dinheiro começou a bailar no ar sobre a névoa dos escombros do acidente.
Em instantes, o local foi tomado por centenas de pessoas que, entre o desespero e a euforia, ignoraram o perigo de explosões para disputar, nota a nota, o dinheiro que poderia encher suas contas bancárias.
As cédulas caídas do céu, entretanto, não valiam nem um centavo boliviano.
Cerca de dezoito toneladas de papel-moeda estavam na aeronave, mas não tinham nenhum valor legal. O dinheiro ainda não tinha numeração ou série oficial, pois estava sendo transportado para o Banco Central da Bolívia.
Na prática, as notas não existiam para a circulação financeira, e o ato de recolhê-las é considerado crime de posse ilícita ao invés de um golpe de sorte.
Afinal, o que aconteceu na Bolívia?
Um avião da Força Aérea Boliviana partiu de Santa Cruz de la Sierra na sexta-feira (27) com a missão oficial de abastecer o Banco Central, em El Alto, cidade vizinha e ainda mais alta que La Paz, para a substituição de cédulas antigas.
O desastre ocorreu por volta das 18h, quando a aeronave militar saiu da pista durante o pouso no Aeroporto Internacional de El Alto em meio a uma tempestade de raios e granizo.
Em uma manobra para evitar a colisão com dezenas de prédios residenciais, os pilotos executaram uma curva brusca que poupou os edifícios, mas lançou a aeronave contra uma avenida, esmagando pelo menos quinze veículos.
As autoridades confirmaram que o acidente deixou 22 mortos e mais de 30 feridos. Entre as vítimas fatais estavam quatro crianças e um dos oito tripulantes da aeronave.
O que se seguiu ao impacto foi um cenário surreal. De acordo com relatos da imprensa local, centenas de pessoas avançaram sobre o perímetro do acidente munidas de paus e pedras para recolher o dinheiro que estava voando, atrasando o atendimento aos feridos.
Em meio ao tumulto, a polícia precisou utilizar gás lacrimogêneo para dispersar a massa. O saldo da desordem foi a prisão de 49 pessoas por vandalismo.
Para encerrar o episódio, as autoridades determinaram a queima do dinheiro que estava na aeronave, visto que ele não tinha valor legal.
O “desperdício” gerou revolta na população. El Alto é uma das regiões mais pobres da Bolívia e está sofrendo com a crise econômica e a retirada de subsídios do governo.
Segundo relatos das agências de notícias, os policiais fizeram uma fogueira improvisada no aeroporto mesmo e, diante de todos, reduziram toda aquela fortuna a cinzas.
A caixa preta e as respostas
Até o momento, a polícia teria identificado apenas nove das vinte e duas vítimas fatais, uma vez que a gravidade do acidente está prejudicando o reconhecimento.
O foco das autoridades agora se volta para a caixa-preta da aeronave, que já foi recuperada e deve fornecer as respostas definitivas sobre o que causou o acidente.
O Ministério da Defesa da Bolívia, no entanto, alertou que a análise e a interpretação desses dados técnicos podem levar várias semanas ou até mais de um ano para serem concluídas. Já o presidente Rodrigo Paz classificou o episódio como um dia de imensa tristeza para a nação.
A junta de investigação trabalha para entender se houve falha humana ou se foi o clima severo que causou essa tragédia.