Como as cotas da carne bovina para o Brasil ajudam os suínos da China?
A China decidiu aplicar cotas para a importação de carne bovina de uma série de países, incluindo o Brasil. A medida é uma tentativa de proteger o mercado interno e, embora seja direcionada à proteína bovina, deve produzir efeitos relevantes sobre a indústria chinesa de suínos.
Após um período de oferta reduzida provocado pela crise da Peste Suína Africana (PSA), iniciada em 2018 e que levou ao abate de cerca de 60% do rebanho do país, a China passou a conviver com um cenário oposto: excesso de produção.
O choque sanitário acelerou um processo de modernização, com forte avanço em verticalização, genética e padrões de sanidade, tornando a suinocultura menos vulnerável a doenças.
Essa transformação resultou em ganhos de produtividade acima do esperado pelo governo. O primeiro reflexo foi a redução das importações de carne suína. Em seguida, veio a formação de estoques estratégicos — atualmente em torno de 500 mil toneladas, segundo a Safras & Mercado.
Para Fernando Iglesias, analista de proteína animal da consultoria, a adoção de cotas para a carne bovina pode funcionar como um mecanismo de suporte à suinocultura chinesa.
“Projetamos inflação nos preços da carne bovina, tanto pela redução das importações quanto por um ano de menor produção de boi na China. Isso implica oferta mais enxuta e tende a deslocar parte da demanda para a carne suína, ajudando a recompor margens. Além disso, a demora dos chineses em restabelecer os embarques de frango do Brasil, após o caso de gripe aviária, também está alinhada a essa estratégia de defesa do mercado local”, afirma.
Hoje, o custo de produção de carnes na China é elevado, com prejuízos acumulados tanto na suinocultura quanto na bovinocultura de corte nos últimos meses. Para efeito de comparação, o milho é negociado no país a cerca de US$ 333 por tonelada, ante US$ 220 no Brasil.
“Não foi por acaso que o setor produtivo, incapaz de competir com matéria-prima importada, pressionou o governo por medidas de proteção. Após um longo estudo, optou-se por salvaguardas. Assim como ocorreu com o tarifaço promovido por Donald Trump, a decisão tende a gerar inflação. A diferença é que, enquanto os EUA recuaram em parte das medidas, a China mira a proteção estrutural da produção local no longo prazo”, completa Iglesias.
O crescimento da carne bovina na China
Segundo Hyberville Neto, da HN Agro, a carne bovina tem ganhado espaço de forma consistente na dieta do consumidor chinês. Para ele, as cotas podem, de fato, beneficiar a suinocultura, mas é preciso considerar a mudança estrutural nos hábitos alimentares.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que, entre 2016 e 2026, o consumo doméstico de carne bovina na China saltou de 6,9 milhões para 11,3 milhões de toneladas — alta de 64,3%. No mesmo período, o consumo de frango cresceu 27,3%, enquanto o de carne suína avançou apenas 3,9%.
“Apesar da forte recuperação da produção suína após a PSA, quando excluímos o efeito da queda anterior, o aumento do consumo foi bastante sutil”, pondera Neto.