Como está o consumidor norte-americano na era da IA generativa — e por que isso impacta seus investimentos
Dois terços do PIB dos Estados Unidos é proveniente do consumo. É um número que, por si só, já explica muita coisa sobre a força da economia americana. Em 2025, o consumo dos EUA seguiu resiliente, crescendo 6,5% em termos nominais, um ritmo sólido para uma economia de mais de US$ 30 trilhões.
Além disso, os EUA representam mais de 30% de todo o consumo global. Quando o consumidor americano acelera ou desacelera, o mundo inteiro sente. É por isso que acompanhar essa variável é tão importante para quem investe.
O crescimento da renda do norte-americano é impressionante
A renda média do consumidor norte-americano alcançou cerca de US$ 90 mil por ano em 2025. Desde 2000, o crescimento composto ficou próximo de 3,7% ao ano, mostrando resiliência ao longo de diferentes ciclos, crises e choques.
Para colocar em perspectiva, a renda média anual na Índia é inferior a US$ 3 mil por habitante. Essa diferença de escala ajuda a entender por que o potencial de consumo nos EUA continua sendo único e uma variável tão importante. O tamanho do mercado e o poder de compra criam um ambiente estruturalmente favorável para empresas voltadas ao consumidor no mercado B2C.
Renda média per capita anual (Em milhares de US$) – EUA

Fontes: U.S. Bureau of Economic Analysis e BTG Pactual
Mas o mercado de trabalho mostra sinais de moderação
Para 2026, o tom é um pouco mais cauteloso. O desemprego está relativamente estável nos últimos seis meses, em torno de 4,3%, ainda em patamar historicamente baixo. Porém, surgem sinais de um mercado mais fraco no conceito de fire, no hire, com menos demissões em massa, mas também menos contratações.
Pesquisas como a AlphaWise AI Survey indicam uma redução líquida de 4% no emprego com a doção de inteligência artificial, com eliminação de vagas e não reposição de postos.
Nossa visão é de um mercado de trabalho mais fraco para esse ano, mas sem deterioração significativa em 2026, considerando o dinamismo da economia americana na criação de novas funções corporativas e formas de atuação.
Tax refunds: um impulso relevante de curto prazo
Existe ainda um fator importante de liquidez que o mercado acompanha de perto. Em 2026, os tax refunds devem atingir cerca de US$ 150 bilhões, crescendo aproximadamente 18% em relação a 2025. Esse fluxo adicional tende a funcionar como impulso relevante para o consumo no curto prazo, principalmente em bens discricionários e serviços.
Gráfico: Reembolsos de impostos – Em milhares de US$ – EUA*

Fontes: U.S. Bureau of Economic Analysis e BTG Pactual
Dois motivos para o consumo ser resiliente nos EUA
O consumo segue resiliente também porque a taxa de poupança dos EUA está baixa, em apenas 3,5%, abaixo da média histórica de 6,3%, indicando maior propensão a gastar em 2025.
Soma-se a isso o efeito riqueza. O S&P 500 acumulou valorização próxima de 80% nos últimos três anos desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, e grande parte dessa performance do mercado de ações é direcionada para um maior nível de consumo quando as posições são liquidadas. Ou seja, quando a bolsa sobe, o impacto psicológico e patrimonial é direto sobre milhões de famílias.
Baixa alavancagem das famílias também nos deixa tranquilos
Outro ponto relevante é o nível de endividamento das famílias. A dívida das famílias norte-americanas em relação ao patrimônio líquido está em 11,4%, o menor nível dos últimos três anos. Isso indica baixa alavancagem e menor risco de crédito sistêmico. Em outras palavras, o consumidor americano entra em 2026 relativamente bem-posicionado do ponto de vista de balanço.
Gráfico: Endividamento/ patrimônio líquido – (EUA)

Fontes: Fred e BTG Pactual
Tarifas e composição da economia
Um ponto importante e muito discutido é o impacto das tarifas na saúde financeira do consumidor. O impacto existe, mas é parcialmente amortecido pela estrutura da economia americana. Aproximadamente 80% do PIB vem de serviços e apenas 20% está diretamente ligado a bens. Isso reduz a transmissão direta de choques tarifários. Ainda assim, o impacto é maior para o consumidor de baixa renda, que consome proporcionalmente mais bens e sente mais os aumentos de preços.
Da economia de consumo ao ciclo de investimento em IA
Há também uma mudança importante na narrativa atual nos EUA. Desde 2022, os EUA deixaram de ser vistos apenas como uma economia impulsionada pelo consumo e passaram a viver um forte ciclo de investimentos relacionado à IA generativa.
O investimento estimado para 2026 é de aproximadamente US$ 660 bilhões, um aumento de 60,2% na comparação anual. Esse investimento é liderado por gigantes de tecnologia, como Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle, sendo o maior ciclo de investimento do EUA em termos nominais.
Conclusão: consumidor resiliente, mas secundário do ponto de vista de investimento
O consumidor americano deve seguir resiliente em 2026, apoiado pelo crescimento da renda real, baixa alavancagem, efeito riqueza e estímulos pontuais, como os tax refunds. No entanto, o principal catalisador da economia nos próximos anos é o ciclo de investimento em IA generativa e seus impactos na produtividade corporativa.
Ou seja, o consumo continua relevante, mas a história estrutural está migrando, gradualmente, para um novo ciclo de crescimento baseado em capital intensivo de empresas de tecnologia com impactos na formação de novas formas de atuação profissionais e maior nível de produtividade das empresas.