Como um lançamento da Anthropic ajuda a explicar a queda de 15% da Totvs (TOTS3)
As empresas de software mundo afora vêm, desde ontem, acumulando fortes quedas após a Anthropic, dona da Claude, lançar uma nova ferramenta de inteligência artificial voltada a automatização de contratos. E a brasileira Totvs (TOTS3) não escapa disso.
A ferramenta — um plug-in para o agente de Claude — automatiza tarefas nas áreas jurídica, comercial, marketing e análise de dados, segmentos em que empresas de software corporativo, como a Totvs, concentram parte relevante de suas receitas.
O lançamento em si, segundo os analistas, mais do que um produto, mostra a investida de companhias na chamada “camada de aplicação”, em que elas estão cada vez mais se infiltrando em negócios corporativos lucrativos. Se bem-sucedida, temem os investidores, essa estratégia poderá causar estragos em diversos setores, das finanças, ao direito e à programação.
A Totvs, frequentemente apontada como a maior empresa brasileira de softwares, atua principalmente com ERP (Enterprise Resource Planning), sistemas de gestão que integram áreas como finanças, contabilidade, recursos humanos, produção e vendas. As soluções atendem empresas de diferentes tamanhos e setores, com oferta tanto na nuvem quanto instalada.
Além disso, a empresa oferece CRM (Customer Relationship Management), voltado à gestão de clientes e vendas, ferramentas de análise de dados e a frente de Techfin, que integra serviços financeiros — como crédito e pagamentos — aos sistemas de gestão.
Com a forte pressão vendedora, TOTS3 recua 14,8% no acumulado dos últimos três pregões e inverteu os ganhos do ano para queda de 9,7%.
A movimentação também ficou bem evidente no exterior. O índice de software e serviços do S&P 500 caiu quase 13% em cinco sessões consecutivas e está 26% abaixo do seu pico de outubro, enquanto o S&P 500 amplo segue em recordes históricos. O índice MSCI de software e serviços mundial caiu 13%.
A estratégia da Anthropic
A estratégia da Anthropic e seu potencial para prejudicar empresas estabelecidas, lembra a forma como a Amazon.com revolucionou diversos setores ao usar sua posição consolidada em um nicho de mercado de livros online para construir um negócio que agora abrange varejo, computação em nuvem e logística.
Alguns analistas afirmaram que o sucesso desses modelos de negócios baseados em IA, no entanto, está longe de ser garantido, visto que eles carecem dos dados especializados que são cruciais para as empresas nesses setores.
A venda de ações expressou uma corrida para proteger portfólios, já que os rápidos avanços na tecnologia obscurecem as avaliações e as perspectivas de negócios para além das previsões padrão de três a cinco anos das empresas.
“Ainda não chegamos ao ponto em que os agentes de IA irão destruir as empresas de software, especialmente considerando as preocupações com segurança, propriedade e uso de dados”, disse Ben Barringer, chefe de pesquisa de tecnologia da Quilter Cheviot.
Barringer afirmou que é provável que haja mais volatilidade no futuro. “Em tempos de volatilidade, as pessoas costumam atirar primeiro e perguntar depois”, acrescentou.
Alguns analistas e especialistas afirmaram ser prematuro decretar o fim das empresas globais de software e dados. O presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, declarou na terça-feira que o temor de que a IA substitua o software e ferramentas relacionadas é “ilógico” e que “o tempo provará” isso.
Mark Murphy, chefe de pesquisa de software empresarial nos EUA do JPMorgan, disse que “parece um salto ilógico” afirmar que um novo plug-in de um LLM “substituiria todas as camadas de software empresarial de missão crítica”.
O software é visto como especialmente vulnerável à disrupção, uma vez que ferramentas como o Claude automatizam cada vez mais as tarefas rotineiras que há muito sustentam o poder de precificação do setor.
“Estamos agora em um ambiente em que o setor não é apenas considerado culpado até que se prove o contrário, mas está sendo sentenciado antes do julgamento”, disse Toby Ogg, analista do JPMorgan.
“Nossa impressão, baseada em conversas com investidores, é de que o interesse geral em entrar nesse mercado permanece baixo”, acrescentou, citando riscos como a concorrência de empresas nativas de IA e clientes que desenvolvem suas próprias soluções internamente.
*Com Reuters