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Covid: O que explica a queda repentina do número de casos e mortes na América do Sul?

29/09/2021 - 17:50
Rio De Janeiro
Considerando um período de sete dias, o continente agora responde por 6% dos casos e 9% das mortes, o menor nível desde o início da pandemia (Imagem: Bloomberg)

A América do Sul, duramente atingida pela Covid-19, registra queda repentina do número de casos e mortes, aparentemente devido à vacinação rápida e ampla na esteira de uma onda terrível que forneceu anticorpos para aqueles que não matou.

Considerando um período de sete dias, o continente agora responde por 6% dos casos e 9% das mortes, o menor nível desde o início da pandemia. No pico em junho, a região representava 38% das infecções globais e 44% dos óbitos.

Uma peculiaridade do continente é que a variante delta, que atrapalhou os planos de reabertura da Ásia aos Estados Unidos, não causou o mesmo impacto.

Também existe a presença de cepas contagiosas semelhantes, como gama e lambda, que podem estar mantendo a delta à distância e ampliando a imunidade. A situação é diferente do México, da América Central e de Cuba, onde a delta se consolidou e as outras duas variantes, não.

“A vacinação ocorreu em um ambiente onde já havia um alto nível de transmissão”, disse Lyda Osorio, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidad del Valle em Cali, Colômbia.

“Portanto, uma hipótese que se poderia antecipar é que as vacinas se tornaram o ‘reforço’ para pessoas que já haviam sido infectadas, e que a imunidade pode durar um pouco mais.”

A América do Sul contabiliza 1,15 milhão dos 4,75 milhões de mortes oficialmente registradas durante a pandemia, 24% do total, apesar de ter apenas 6% da população mundial. Mesmo considerando subnotificações, quase 10% da população testou positivo.

A região está acostumada a vacinas contra a febre amarela, malária, meningite e outras doenças, e a Covid foi incluída no cartão de vacinação da maioria.

Seis dos 10 principais países da América do Sul administraram pelo menos uma primeira dose a 50% da população. Chile, Equador e Uruguai completaram a imunização de uma parcela maior dos habitantes do que nos Estados Unidos.

Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, 99% dos adultos elegíveis foram vacinados com uma dose e muitos já receberam reforço.

“Nossa população tem uma cultura de vacinação, e não há tanta rejeição como em outros lugares”, disse Maria Teresa Valenzuela, professora da Universidade dos Andes, no Chile, e assessora do Ministério da Saúde.

“As pessoas têm sido responsáveis em obedecer aos apelos das autoridades, e o processo tem sido ordenado em termos de idade, grupos de risco e de encontrar lacunas onde há atraso.”

A onda brutal de Covid-19 que atingiu o continente no primeiro semestre de 2021 ocorreu em meio a lentas campanhas de vacinação devido a restrições de oferta e logística.

A certa altura, o Brasil – que tem o segundo maior número de mortes no mundo depois dos EUA e com uma população menor – tinha uma média de mais de 3.000 mortes por dia. E o Peru continua sendo o país com a maior taxa de mortalidade per capita.

“Tivemos um surto com a gama entre fevereiro e maio que, se você olhar em outros lugares do mundo, não encontra paralelo”, disse Fernando Spilki, membro da RedeVírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Segundo ele, isso cria uma forma de imunidade que, combinada com vacinas, poderia prevenir outro surto em massa.

A melhora repentina na região, no entanto, é motivo de debate. Profissionais de saúde destacam não apenas as taxas de vacinação constantes com pouca hesitação e anticorpos acumulados naturalmente devido ao contágio generalizado no início do ano, mas também o uso contínuo de máscaras e atrasos na reabertura. Também reconhecem que ainda há muito mistério sobre o comportamento do coronavírus.

Com o trauma da onda anterior, estádios esportivos permaneceram praticamente fechados e shows em ambientes internos ainda não estão permitidos como em partes da América do Norte.

Agora, a América do Sul, com cerca de 420 milhões de habitantes do Caribe à Antártida, começa a retomar hábitos da pré-pandemia, criando alívio e ansiedade.

Depois de fechar aeroportos na maior parte de 2020 e restringir visitantes diários a apenas 600 pessoas, incluindo cidadãos, a Argentina se prepara para uma reabertura completa nas próximas semanas. O Chile, que provavelmente teve o toque de recolher mais longo em um país democrático, também suspenderá as restrições noturnas.

Depois da queda média de 6,3% do PIB da América do Sul em 2020, as economias do continente devem crescer cerca de 5,1% este ano, deixando muitas ainda abaixo dos níveis pré-pandemia, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

Embora a calmaria seja bem-vinda em uma região que desfruta da primavera e se encaminha para o verão, médicos alertam contra baixar a guarda. Por enquanto, a maioria das pessoas continua a usar máscara ao ar livre nas principais áreas metropolitanas, incluindo parques.

Gustavo Miranda, pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas da USP, se diz preocupado.

“Se abrirmos mão dessas ações [sanitárias], por exemplo, da máscara, a delta vai predominar, porque ela tem capacidade maior de dispersão”, disse Miranda.

“Estamos bem em uma linha tênue, entre chegar próximo de um controle da pandemia ou voltar a esse ciclo [de uma nova onda]. É praticamente impossível falar que controlamos a pandemia ou que vamos controlar até metade do ano que vem. Estamos ganhando essa guerra, batalha por batalha, mas isso pode virar contra nós como virou na segunda onda.”

Última atualização por Renan Dantas - 29/09/2021 - 17:50

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