Correios em crise: Será que alguém ainda quer comprar a estatal?
Nesta quarta-feira (26), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que dentro do Governo Federal não há nenhum debate sobre a privatização dos Correios, que está em forte crise financeira. Há cerca de cinco anos, era grande o interesse de companhias privadas pelos ativos da estatal de logística, mas hoje, segundo fontes escutadas pelo Money Times, a situação mudou.
Em 2020 e 2021, circularam notícias afirmando que nomes como Magazine Luiza (MGLU3), Amazon (AMZN34), FedEx e DHL estariam interessados na compra dos Correios.
A Câmara dos Deputados, em agosto de 2021, chegou a aprovar um projeto de lei que permitia a privatização da empresa. No entanto, a venda encontrou resistência no Senado e acabou travando.
“Os Correios cresceram muito em entregas por conta do primeiro boom do e-commerce. Eles têm o diferencial da capilaridade. Em alguns lugares, até hoje, só eles chegam. Por isso, grande parte das varejistas são clientes deles até hoje”, disse um executivo que esteve nas discussões passadas sobre a privatização.
Empresas avançaram em logística
Porém, o fato é que boa parte das companhias já avançou muito em suas próprias malhas logísticas.
“Todos os e-commerces, em determinado momento, passaram a oferecer serviços. As grandes varejistas não só vendem, como também oferecem plataforma e entrega para lojistas parceiros”, explica o executivo. “O serviço deles também nunca foi barato. Sempre foi uma opção cara, e o nível de serviço era apenas ok. Não ruim, mas nunca excepcional”, afirmou.
Esse foi o primeiro baque nas contas dos Correios. As companhias expandiram suas malhas e passaram, além de usar sua própria logística para as suas entregas, a oferecer a terceiros e lojistas parceiros serviços mais completos e mais baratos do que a estatal.
O Correios ainda possui, para o executivo, valor estratégico importante devido à sua capacidade de chegar a regiões onde nenhuma outra transportadora atua. Mesmo empresas com estruturas logísticas próprias mantêm entre 10% e 15% de seus volumes nas mãos da estatal justamente por essa capilaridade única. “Mas é um volume que hoje, para o custo fixo dos Correios, é insuficiente para tornar a operação rentável”, afirma.
João Paulo Lima, CFO do Mercado Livre, vai no mesmo caminho: “Nós somos clientes dos Correios. Eles ainda têm o diferencial de chegar a todas as cidades do Brasil, mas nós construímos uma estrutura própria que atende a grande maioria dos nossos consumidores”.
Frente internacional e Remessa Conforme
O segundo impacto para os Correios foi na frente de entregas internacionais.
Durante muitos anos, os Correios tiveram uma espécie de monopólio informal nas remessas internacionais de pequeno valor — especialmente nas encomendas vindas da China.
No entanto, o avanço das novas companhias de logística também acabou afetando o segmento.
A “pá de cal” no faturamento dos Correios foi o fim do Remessa Conforme. O programa que permitia importações de pequeno valor (até US$ 50) com desburocratização e liberação aduaneira mais rápida deixou de valer para várias plataformas e, com isso, os volumes de pacotes caíram.
Os Correios enfrentam hoje um cenário com mais empresas lutando por menos volumes. Além disso, a companhia também se mostra menos competitiva que as demais.
“Os Correios têm um problema sério de custo operacional. Eles têm um passivo trabalhista e um passivo previdenciário gigantescos. O plano de saúde é um buraco gigantesco”, explica o primeiro executivo, lembrando que a empresa segue um regime trabalhista diferente da CLT.
“Nenhuma empresa hoje conseguiria fazer o turnaround da forma que a estrutura está. É um ativo impossível de ser vendido”, completa. “Seria até um risco reputacional, pois qualquer recuperação envolverá demissões e cortes muito grandes. No passado, já fomos atacados por estarmos nos ‘aproveitando’ da situação negativa [da estatal]”.
Para Alberto Serrentino, consultor do setor de varejo, os Correios ainda são um ativo valioso, mas que perdeu relevância em um ambiente mais competitivo. “Vai ter que ser muito mais agressiva e competitiva para poder se recuperar”, afirma.