Curva de juros avança com precificação de corte menor na Selic pelo Copom
A curva de juros futuros brasileira opera em forte alta nesta terça-feira (3) com a escalada de tensão no Oriente Médio e o temor de reflexo da recente valorização do petróleo Brent na inflação.
Por volta de 12h (horário de Brasília), as taxas de Depósitos Interfinanceiros (DIs) operavam nas máximas intradia em todos os vértices da curva.
O DI para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, operava a 13,575% ante 13,305% do fechamento anterior. Já o DI para janeiro de 2031, de médio prazo, estava a 13,505% ante 13,117% do ajuste anterior e o DI para janeiro de 2036, de longo prazo, subia a 13,730% ante 13,385% da véspera.
O mau humor nos mercados se intensificou diante da incerteza sobre a duração do conflito após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Ontem (2), o Catar suspendeu sua produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
O Estreito de Ormuz – controlado pelo Irã e uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo – também está fechado e a Guarda Revolucionária Iraniana já afirmou que vai disparar contra qualquer navio que tentar passar pela rota.
“Com o câmbio pressionado e o petróleo em alta no radar, a curva de juros futuros brasileira abre de forma generalizada, com as taxas de DIs intermediários e longos rodando nas máximas do dia, em alinhamento à alta firme do dólar e dos Treasuries”, disse Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.
Nos Estados Unidos, o rendimento (yield) do Título do Tesouro norte-americano de 10 anos – referência global para decisões de investimento – sobe 5 pontos-base na comparação com fechamento anterior, a 4,059%.
De olho na Selic
Segundo analistas, o principal cenário de risco é o impacto da alta do petróleo na inflação – que está em processo de desaceleração com a Selic no maior nível desde meados de 2006, a 15% ao ano.
No acumulado dos últimos dois pregões, o Brent, referência para o mercado global de petróleo, acumula valorização de mais de 15%. Nesta terça-feira (3), o contrato mais líquido, com vencimento em maio, tem valorização de 8%, com o barril sendo negociado a US$ 85 – no maior nível desde julho de 2024.
Vale lembrar que na última decisão de política monetária, o Banco Central sinalizou um corte de 0,50 ponto percentual na Selic, o que reduziria a taxa de juros de 15% ao ano para 14,50% neste mês. A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está prevista para os dias 17 e 18.
Contudo, a escalada de tensão no Oriente Médio mudou o cenário, na visão do mercado. Hoje, a curva de juros futuros já precifica um corte menor na Selic: a aposta de uma redução de 0,25 ponto percentual em março se tornou majoritária, com probabilidade de 52%. Já a chance de corte de 0,50 ponto percentual, a sinalizada pelo BC, é de 48%.
Ontem, a curva a termo precificava 72% de chance de corte de 0,50 ponto percentual na taxa de juros e 28% de redução menor, de 0,25 ponto percentual. Já na semana passada, as apostas de redução da Selic para 14,50% atingiram quase 100%.
O que mais mexe com os DIs hoje?
Em segundo plano, os investidores reagem a novos dados macroeconômicos. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,1% no quarto trimestre de 2025 (4T25). O crescimento econômico acumulado em um ano, por sua vez, foi de 2,3% frente aos quatro trimestres imediatamente anteriores, em linha com o esperado.
Segundo a mediana das projeções do Broadcast, a expectativa era de um crescimento de 0,1% no quarto trimestre e de 2,3% no ano.
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Na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, o crescimento do PIB veio de setores menos sensíveis ao ciclo econômico: agropecuária – que registrou expansão acima do esperado contra a expectativa de queda – e a indústria extrativa, que também seguiu em crescimento ascendente, na leitura dele.
“Esses dois setores tiveram papel protagonista no crescimento do PIB em 2025. Sem o setor agropecuário e da indústria extrativista, a expansão total da economia no ano passado teria sido menor, de 1,3%”, afirmou.
Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou a criação de 112.334 vagas formais de trabalho em janeiro, acima do esperado pelos economistas. Segundo a Reuters, a expectativa era de criação de 92 mil postos de trabalho com carteira assinada no mês.
Apesar disso, o saldo foi o menor para o mês de janeiro desde 2024, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).