De onde veio o dinheiro para o filme ‘O Agente Secreto’? Spoiler: não teve Lei Rouanet
Depois de vencer dois Globos de Ouro e recolocar o cinema brasileiro no centro das atenções, O Agente Secreto ganhou também um segundo protagonismo: as fake news.
Bastou a premiação para que as redes sociais ressuscitassem um velho debate sobre dinheiro público, incentivos culturais e a onipresente Lei Rouanet. A pergunta que se espalhou foi simples: de onde veio o dinheiro do filme?
A confusão ganhou força depois que O Agente Secreto venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa, e Wagner Moura levou o prêmio de melhor ator em filme de drama, na edição de 2026.
Com a vitória, o nome da Lei Rouanet entrou nos “trending topics” do X (antigo Twitter).
O orçamento do filme
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto teve custo de produção estimado em R$ 27 milhões. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o orçamento total chegou a R$ 28 milhões, considerando a coprodução internacional. Desse montante:
- R$ 13,5 milhões correspondem à parte brasileira;
- R$ 7,5 milhões vieram do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA);
- o restante foi bancado por aportes privados e parceiros estrangeiros, principalmente de França, Alemanha e Holanda.
Ou seja: não houve uso da Lei Rouanet na produção do longa-metragem.
Por que a Lei Rouanet não foi usada?
Porque ela não se aplica a longas-metragens de ficção. Criada em 1991, a Lei Rouanet — oficialmente Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) — funciona como um mecanismo de incentivo fiscal, não como repasse direto de dinheiro público.
Empresas e pessoas físicas destinam parte do Imposto de Renda a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. Mas há limites claros.
No audiovisual, a lei pode apoiar:
- festivais de cinema;
- documentários;
- curtas e médias-metragens.
Longas de ficção, como O Agente Secreto, ficam fora desse escopo.
Então o que é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA)?
O FSA é um instrumento específico para o cinema e o audiovisual. Ele funciona por meio de editais públicos, com regras técnicas, análise de mérito e acompanhamento da execução.
Em 2023, O Agente Secreto venceu um concurso público do FSA, ao cumprir os critérios do edital. O dinheiro é liberado para produção, com fiscalização contínua e prestação de contas. Nada de cheque em branco.
E a comercialização do filme O Agente Secreto?
Além da produção, houve investimento na etapa de lançamento e divulgação. A comercialização custou cerca de R$ 4 milhões: R$ 750 mil vieram novamente do FSA e R$ 3 milhões foram captados via Lei do Audiovisual, outro mecanismo diferente da Rouanet, que permite a pessoas físicas e jurídicas destinarem parte do IR para obras audiovisuais selecionadas pela Ancine.
Aqui sim há incentivo fiscal, mas dentro de uma lei específica para cinema, com regras próprias.
É importante ressaltar que tanto o FSA quanto a Lei do Audiovisual e a Rouanet operam sob fiscalização rigorosa:
- gastos rastreados eletronicamente;
- prestação de contas detalhada;
- acompanhamento do Ministério da Cultura, da Ancine e de órgãos como TCU, CGU e Receita Federal;
- transparência por meio de plataformas de consulta pública.