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Fictor: Por que a empresa transformou ‘sócios’ em ‘credores’ pouco antes de pedir recuperação judicial

02 fev 2026, 18:05 - atualizado em 02 fev 2026, 18:40
Fictor
O CEO da Fictor, Rafael Góis / Foto Reprodução

O aviso chegou no fim da noite deste domingo (1º), fora do horário comercial, e mudou a posição de centenas de investidores da Fictor. Em um comunicado enviado por volta das 21h de ontem, a empresa informou que estava promovendo o distrato unilateral das Sociedades em Conta de Participação (SCPs), estrutura que usava para captar recursos.

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“A Fictor Invest, na qualidade de sócia ostensiva, vem formalmente comunicar a decisão de promover o distrato da sociedade em conta de participação da qual os investidores integram o quadro societário”, diz o comunicado enviado pela empresa, segundo relato de um investidor que falou ao Money Times sob condição de anonimato.

O aviso pegou os investidores de surpresa — especialmente aqueles que já tinham resgates solicitados e com data prometida para pagamento.

Poucas horas depois do e-mail, por volta da meia-noite desta segunda-feira (2), veio o pedido de recuperação judicial (RJ).

Um advogado ouvido pela reportagem explica que, com o distrato, a posição dos investidores mudou completamente. Eles deixaram de ser sócios — condição que os mantinha fora da recuperação judicial — e passaram a ser tratados como credores, com seus valores a receber incluídos no passivo da empresa.

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Na prática, isso significa que os pedidos de pagamento deixam de poder ser cobrados individualmente e passam a seguir as regras da recuperação judicial, como a suspensão de cobranças por até 180 dias e a negociação dos valores dentro do plano apresentado pela empresa.

Ao mesmo tempo, o distrato tira do caminho discussões imediatas sobre a saída dos sócios ou a liquidez das SCPs e leva toda a disputa para o ambiente da RJ.

“O que eles fizeram foi transformar todo mundo em credor antes de entrar com a recuperação judicial. Assim, os pagamentos que estavam prometidos simplesmente deixam de existir”, afirma o investidor.

Investidor tem R$ 300 mil aportados na Fictor

No caso ouvido pelo Money Times, o aporte total foi de R$ 300 mil, dividido em três contratos firmados a partir de 2023, todos estruturados como SCP.

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A oferta comercial previa retorno fixo de 1,42% ao mês, pagamento mensal de juros e possibilidade de resgate mediante aviso prévio de 60 dias. O dinheiro, segundo a narrativa apresentada na época, seria direcionado a operações ligadas ao agronegócio, como milho e soja.

O pedido de resgate integral foi feito em 10 de outubro. Três dias depois, a própria Fictor respondeu por e-mail confirmando o recebimento da solicitação e informando que o pagamento ocorreria em 12 de dezembro. A data, porém, passou sem qualquer depósito.

“Depois disso, foi só falta de clareza. Nunca diziam exatamente o que estava acontecendo, nunca davam uma data firme. A sensação constante era de que estavam empurrando o problema para frente”, relata.

Segundo o investidor, uma nova promessa de pagamento foi feita para 12 de fevereiro, mas acabou esvaziada agora pelo distrato e, em seguida, pelo pedido de recuperação judicial.

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Em resposta a um questionamento enviado já após a divulgação da RJ, uma funcionária da Fictor afirmou ao investidor que, com o processo, haveria suspensão de execuções por até 180 dias, prorrogáveis, e que os pagamentos não seriam honrados.

“Eles mesmos disseram, por escrito, que com a recuperação judicial os pagamentos não seriam feitos. Ou seja, aquilo que estava prometido deixou de existir”, diz.

SCPs: Como eram os investimentos na Fictor

Em reportagem publicada em janeiro de 2026, o portal Seu Dinheiro, parceiro do Money Times, explicou como funcionavam os investimentos mantidos pela Fictor (leia a reportagem completa aqui). Esses investimentos eram oferecidos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs).

As SCPs, previstas no Código Civil, permitem que sócios se unam para investir em empreendimentos, com um sócio ostensivo (gestor com CNPJ) e sócios participantes (investidores).

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Comum em incorporações imobiliárias familiares, a SCP é um contrato privado. A Fictor, porém, transformou esse modelo em uma captação em massa, levantando R$ 1,67 bilhão via 12 SCPs desde 2021, segundo a imprensa.

A Fictor divulgou SCPs publicamente prometendo retornos altos, o que é irregular, pois caracteriza oferta pública e garantia de retorno em instrumento não garantido.

SCPs não são valores mobiliários e não são fiscalizadas pela CVM, mas a oferta pública via redes sociais e assessores configura contrato de investimento coletivo, sujeitando-se à CVM. O modelo SCP é legal, mas a forma como a Fictor o usou é irregular, segundo advogados ouvidos pelo Seu Dinheiro.

À época, a empresa negou irregularidades e alegou confidencialidade dos dados. O Money Times entrou em contato com a empresa, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço continua aberto.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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