Depois da correção, ouro volta ao radar
A percepção dos investidores sobre os principais riscos para os mercados vem passando por uma mudança gradual.
Embora a possibilidade de uma nova rodada inflacionária continue sendo vista como uma ameaça mais relevante do que um eventual excesso de otimismo em torno da inteligência artificial, a distância entre esses dois fatores diminuiu de forma significativa nos últimos meses.
Curiosamente, parte dos defensores da tese de IA, entre eles Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, argumenta que os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia poderão exercer uma pressão desinflacionária relevante ao longo do tempo.
Nesse contexto, a combinação entre avanços tecnológicos e a redução das tensões geopolíticas no Oriente Médio, após o acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz, começa a favorecer uma reavaliação de ativos como o ouro.
Depois de ter sido apontado como uma das posições mais consensuais do mercado no início do ano, o metal atravessou uma correção expressiva e hoje parece negociar em níveis mais próximos de seu valor de equilíbrio, voltando a despertar interesse entre investidores.
A correção do ouro foi provocada, sobretudo, pela forte reprecificação das expectativas para a política monetária americana. Dados econômicos mais robustos, um mercado de trabalho resiliente e uma inflação persistentemente elevada, principalmente depois da alta dos preços de energia, levaram os investidores a reduzir as apostas em cortes rápidos de juros pelo Federal Reserve.
Após atingir a máxima histórica de US$ 5.595 por onça ao fim de janeiro, o metal acumulou uma queda próxima de 25% até o início de junho. O movimento foi intensificado por investidores sistemáticos e estratégias quantitativas que carregavam posições compradas relevantes após a forte valorização observada anteriormente.
Ainda assim, a correção contribuiu para tornar o posicionamento técnico do mercado significativamente mais saudável.
Com a formalização do acordo entre Estados Unidos e Irã e a possibilidade de uma postura monetária não tão dura nos próximos trimestres, cresce a percepção de que o ouro pode voltar a encontrar suporte, especialmente diante da expressiva correção observada nas ações de empresas ligadas à mineração aurífera.
Mais importante do que os movimentos de curto prazo, os fundamentos estruturais da tese permanecem preservados. Os bancos centrais continuam desempenhando o papel de comprador marginal relevante, respondendo atualmente por cerca de 20% da demanda global pelo metal.
Apenas no primeiro trimestre de 2026, as compras líquidas do setor oficial alcançaram 244 toneladas, bem acima da média histórica. China, Polônia e Turquia seguem ampliando suas reservas, enquanto o Conselho Mundial do Ouro projeta uma demanda oficial entre 700 e 900 toneladas ao longo deste ano.
Por trás desse movimento está uma tendência mais ampla de diversificação das reservas internacionais e redução da dependência do dólar, processo que ganhou força após o congelamento de aproximadamente US$ 300 bilhões em reservas russas.
Essa demanda estrutural continua oferecendo um importante suporte de longo prazo para o ouro, especialmente em economias emergentes que ainda mantêm uma participação baixa do metal em suas reservas.
Nesse contexto, o ouro segue tendo um papel relevante dentro de portfólios, funcionando como instrumento de proteção, preservação de capital e mitigação de riscos em períodos de maior incerteza.
Em termos de alocação, posições entre 2,5% e 5% do portfólio costumam ser suficientes para que o ouro cumpra sua função de diversificação e proteção sem comprometer o equilíbrio da carteira.
Para investidores com acesso ao mercado internacional, ETFs como o iShares Gold Trust (IAU) oferecem uma forma simples e líquida de obter exposição direta ao metal. No Brasil, alternativas como o ETF BTG Pactual B3 Ouro (GOLB11) desempenham papel semelhante.
Já os fundos de ouro dolarizados, sem proteção cambial (hedge), adicionam uma camada adicional de defesa ao combinar a exposição ao metal com uma proteção natural contra eventuais episódios de desvalorização do real.
Independentemente do veículo escolhido, a lógica permanece: utilizar o ouro como um instrumento complementar dentro de uma estratégia diversificada, respeitando o tamanho adequado da posição e buscando um equilíbrio entre proteção, liquidez e potencial de geração de retorno no tempo.