Dividendos altos e alavancagem saudável: A estratégia da Allos (ALOS3), segundo a CFO
Uma das principais operadoras de shopping centers da América Latina, a Allos (ALOS3) tem chamado a atenção dos investidores pelos dividendos elevados prometidos para 2026 — mas o que acontece nos bastidores vai muito além dos números.
A empresa tem apostado em redesenvolvimento de ativos, projetos multiuso, parcerias com construtoras e otimização financeira para manter uma geração de caixa consistente, mesmo em um cenário de juros ainda elevados.
Esta estratégia é comandada em boa parte por Daniella Guanabara, diretora financeira (CFO) e de relações com investidores (RI) da companhia, que concedeu uma entrevista ao Money Times.
Allos: mudança de rota
Depois de se tornar conhecida como uma máquina de fusões e aquisições, a Allos mudou de rota. A empresa, que é resultado da integração entre Aliansce Sonae e brMalls, concluída em 2023, chegou a ter um portfólio de 2,2 milhões de m² de área bruta locável (ABL).
No entanto, na tentativa de deixar a carteira mais simples e homogênea, realizou a venda de alguns ativos, reduzindo a ABL para cerca de 1,9 milhão de m², espalhados em 53 shoppings.
Segundo Guanabara, atualmente a companhia tem priorizado projetos de execução rápida, que permitem rentabilizar melhor o capital investido, ao mesmo tempo que exigem menor capex. A ideia é trabalhar o que a empresa já tem.
“Estamos em um momento macroeconômico com juros muito altos. Sabemos que existe uma perspectiva de baixa, mas, se as projeções seguirem, [a Selic] deve chegar nos 12%, 12,5% no final de 2026. Ainda é um patamar elevado. Então, decidimos focar em projetos de execução mais rápida, que pudessem trazer retorno mais rápido. O foco da Allos está em projetos que a gente chama de redesenvolvimento”, afirmou a executiva.
“Eu pego uma área, por exemplo, de uma loja-âncora que saiu, refaço aquele canto do shopping e divido essa unidade em três lojas menores. Com isso, consigo melhorar a circulação, trazer novidade para o shopping e rentabilizar melhor aquele espaço usando um capex menor”, disse.
De acordo com a diretora, foi essa estratégia, combinada à redução da alavancagem, que abriu espaço para uma política mais agressiva de remuneração aos acionistas.
Para 2026, a projeção da Allos é distribuir entre R$ 1,7 bilhão e R$ 1,8 bilhão em dividendos, com valores estimados (guidance) entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por ação por mês. A título de comparação, entre 2023 e 2025, foram distribuídos R$ 3,3 bilhões em proventos.
Não à toa, o BTG Pactual elegeu recentemente a ação da empresa como top pick do setor de shoppings, destacando o foco da operadora em gerar valor.

Gestão de passivos e alavancagem
Guanabara também destacou que a companhia implementou uma gestão estratégica de passivos, pré-pagando dívidas mais caras e emitindo novas com custo menor e prazo mais longo. “Com isso, eu desafogo um pouco o resultado financeiro, apesar de a taxa de juros ainda estar muito alta”, disse.
Na visão da executiva, a empresa tem mantido uma alavancagem saudável, próxima de duas vezes dívida líquida sobre o Ebitda, considerada por ela a ideal para o setor.
“É uma alavancagem baixa, que nos permite realavancar a empresa distribuindo proventos. Podemos pagar um dividendo mesmo que ele supere um pouco a geração de caixa porque a alavancagem está saudável.”
Ter o consumidor por perto
Para além dos rendimentos, Guanabara pontuou que a Allos tem desenhado seu futuro com os chamados projetos multiuso, transformando áreas e criando bairros que, na prática, respiram junto com os shoppings.
Segundo a diretora, a companhia tem firmado parcerias com empreendimentos residenciais na tentativa de conectar crescimento, consumo e experiência do cliente.
O objetivo é simples: atrair mais pessoas para morar próximo aos shoppings, aumentando a densidade demográfica e, assim, garantindo “consumidores qualificados”.
“A alocação de capital no multiuso é interessante porque fazemos parcerias com construtoras. Eu combino com a construtora que quero um prédio de determinado padrão para que a pessoa que vai morar ali possa consumir no meu shopping”, contou a executiva.
“Somos donos do terreno, fazemos o swap financeiro e ficamos com um percentual das vendas quando a construtora entrega ao cliente final”, prosseguiu.
A Allos tem hoje 69 torres residenciais em construção, planejadas em 14 shoppings e distribuídas por oito estados. Com elas, espera aumentar em cerca de 30 mil pessoas a população residente nas áreas primárias dos ativos. “Quem morar ali poderá chegar ao shopping em até cinco minutos a pé.”
Vida além do eixo Rio-São Paulo
Guanabara também apontou que a companhia não tem se limitado à região Sudeste do país. Com presença no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a executiva destacou que a Allos possui market share expressivo nessas áreas e empreendimentos individuais com vendas acima de R$ 1 bilhão.
“Quem mora no eixo Rio-São Paulo talvez não tenha ideia da renda que temos disponível Brasil afora. O Shopping Recife, em que temos 30% de participação, é um ativo fortíssimo. O Dom Pedro, em que temos 51% [de fração], em Campinas, também”, afirmou.
“Temos 43% de market share na região Norte. Dos quatros shoppings que operamos lá, por exemplo, três vendem mais de R$ 1 bilhão.”
Foco na classe média e mais dinheiro rodando
Ao ser questionada sobre o público-alvo, a diretora pontuou que os shoppings da companhia são projetados para atender, principalmente, à classe média, garantindo, segundo ela, a sustentabilidade do negócio.
“Quando você constrói um shopping, projeta para a classe média e média-alta. A classe mais baixa pode frequentar, consumir e se entreter, mas não sustenta o ativo no longo prazo.”
Com isso, Guanabara espera que a nova isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil, em vigor desde o início de 2026, impulsione o consumo nos shoppings– embora de maneira não transformacional.
“O brasileiro, historicamente, poupa pouco. Esse alívio no bolso, mesmo que modesto, de R$ 300 ou R$ 500 a mais por mês, pode se converter em pequenas experiências de consumo. Eu acredito que vai ajudar. Não é transformacional, mas é claro que é uma notícia positiva.”
Recomendações para Allos (ALOS3)
Desde o início de janeiro, as ações da Allos (ALOS3) acumulam alta de cerca de 10% na B3. No recorte de 12 meses, o desempenho é ainda mais expressivo, com valorização aproximada de 63%. Os papéis saíram de R$ 19,26, em fevereiro de 2025, para os atuais R$ 31,48.
De oito bancos e casas de análise consultados pelo TradeMap, sete têm recomendação de compra e um tem recomendação neutra para a operadora de shopping centers.