Do templo do futebol à arena multiuso: Novo Pacaembu recebe poucos jogos e muitos shows
Símbolo histórico do futebol paulista, o Estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, atravessa um momento de transformação. Reinaugurado em 25 de janeiro de 2025 — aniversário da cidade de São Paulo — com o novo nome de Mercado Livre Arena Pacaembu, o estádio ainda busca retomar protagonismo no calendário esportivo após passar por uma ampla reforma.
O retorno do estádio aconteceu durante a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior entre São Paulo e Corinthians. Apesar da cerimônia simbólica, o número de partidas disputadas ali desde então tem sido baixo. Desde o início das obras, em 2021, até o período após a reabertura, apenas nove jogos de futebol profissional foram realizados no local.
Durante décadas, o Pacaembu foi palco frequente de partidas dos principais clubes da capital. Corinthians, Palmeiras e São Paulo utilizaram o estádio em diferentes momentos como casa principal ou alternativa, assim como o Santos em diversas ocasiões.
A recente modernização, porém, mudou a configuração do complexo. O projeto transformou o espaço em uma arena multiuso, reduziu a capacidade para cerca de 26 mil torcedores e incluiu a demolição do tradicional setor conhecido como “Tobogã”. No local, está prevista a construção de um hotel integrado ao complexo.
A arena pertence à Prefeitura de São Paulo, mas sua gestão foi concedida à iniciativa privada em 2019, ainda durante a administração do então prefeito Bruno Covas. A concessão ficou sob responsabilidade do consórcio liderado pela Allegra Pacaembu.
Além disso, a empresa de tecnologia Mercado Livre adquiriu os naming rights do estádio em um acordo estimado em cerca de R$ 1 bilhão para utilização do nome ao longo de três décadas.
Mesmo com a nova estrutura, o futebol não é a principal fonte de atividades do espaço. Levantamento do portal ge aponta que, dos 146 eventos realizados no complexo em 2025, aproximadamente 75% foram shows, eventos corporativos ou outras atrações que não envolvem partidas de futebol.
A estratégia reflete também uma necessidade financeira. Para equilibrar as contas e evitar prejuízo operacional, a arena precisa gerar aproximadamente R$ 150 milhões em receitas por ano. No entanto, a arrecadação registrada em 2025 ficou em cerca de R$ 104 milhões.
Mudanças que afastam os clubes
Entre os fatores que dificultam a volta frequente do futebol ao Pacaembu está a instalação de gramado sintético. A escolha reduz custos de manutenção e facilita a realização de eventos variados no estádio.
Entre jogadores, no entanto, o tipo de piso ainda gera resistência. Atletas como Lucas Moura, Neymar e Memphis Depay já manifestaram críticas ao uso do gramado artificial, muitas vezes chamado por eles de “piso de plástico”. Em alguns casos, jogadores chegaram a declarar que preferem não atuar em estádios com esse tipo de superfície.
Mesmo para o Palmeiras, que utiliza gramado sintético no Allianz Parque e frequentemente precisa buscar alternativas quando o estádio recebe shows, o Pacaembu não se consolidou como solução principal.
Isso porque o clube passou a contar com outra opção. Desde 2023, a empresa Crefipar — ligada à presidente Leila Pereira — assumiu a administração da Arena Barueri por um período de 35 anos. Rebatizado de Arena Crefisa Barueri, o estádio passou a receber partidas do time principal do Palmeiras, ainda que o acesso ao local seja alvo frequente de reclamações por parte dos torcedores.
Outro clube que chegou a avaliar o uso do Pacaembu foi a Portuguesa. Reestruturada como SAF, a equipe analisou a possibilidade de mandar jogos no estádio enquanto planejava a modernização do Canindé. A ideia, porém, não avançou. O custo do aluguel do espaço, estimado em cerca de R$ 250 mil por partida, somado ao adiamento das obras no estádio da Lusa, esfriou a negociação.
Procurada pela reportagem, a administração da Mercado Livre Arena Pacaembu não se manifestou até a publicação deste texto. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.