Dólar abaixo de R$ 5? Mansueto Almeida vê caminho para valorização do real, apesar do “calcanhar de Aquiles” fiscal
A ideia de um dólar abaixo de R$ 5,00 em 2026 pode parecer distante em meio a tantas incertezas locais e externas, mas não para Mansueto Almeida. O economista‑chefe do BTG Pactual e ex‑secretário do Tesouro Nacional avalia que a moeda americana pode sim romper esse piso.
Embora o cenário base do banco projete o dólar em torno de R$ 5,20 no fim deste ano, Mansueto afirma que há espaço para uma valorização ainda maior do real caso a próxima administração — seja de qual partido for — ataque o principal ponto de fragilidade econômica do país: o descontrole das contas públicas.
Fiscal é o “calcanhar de Aquiles”
Durante participação no painel Onde Investir em 2026, evento do site Seu Dinheiro, o economista foi direto ao diagnosticar o maior problema estrutural da economia brasileira.
“A questão fiscal realmente é o grande calcanhar de Aquiles”, afirmou. A trajetória da dívida pública continua sendo motivo de atenção no mercado, segundo Mansueto.
Projeções oficiais apontam que o indicador deve saltar de 71,7% no início do atual governo para 83,6% do PIB em 2026. Esse avanço pressiona juros, afeta expectativas e limita o espaço para quedas mais consistentes na taxa básica de juros (Selic), afirmou.
O que precisa acontecer para o dólar cair?
Para Mansueto, a possibilidade de o câmbio operar abaixo de R$ 5,00 é absolutamente factível — mas depende da política econômica que será adotada logo após as eleições.
“Se houver a perspectiva de um governo, qualquer governo, que vá implementar uma agenda fiscal para resolver imediatamente o problema da dívida, o dólar pode tranquilamente ir para um número abaixo de cinco”, disse.
Ele ressalva, porém, que 2026 tende a ser um ano de volatilidade extrema.
“Janeiro começou com o dólar a R$ 5,35, mas em ano eleitoral ninguém sabe onde vai estar essa taxa em três ou quatro meses”, afirmou.
O alívio recente no câmbio, observa, foi impulsionado por ventos externos favoráveis e pela manutenção da maior taxa de juros real do mundo — um fator que continua atraindo capital estrangeiro para o país.
Gastos em alta e o desafio para 2027
Mansueto chama atenção também para o ritmo de expansão das despesas públicas. O atual ciclo de governo deve encerrar quatro anos com um crescimento real de gastos de cerca de 20% — mais que o dobro dos 9% observados entre 2014 e 2022.
Esse avanço, diz ele, é inflacionário por natureza e dificulta a convergência da Selic para patamares de um dígito. Nesse contexto, a inflação relativamente bem comportada representa uma surpresa.
O economista descreve dois caminhos possíveis para 2027:
- Cenário otimista: um plano fiscal crível permitiria juros abaixo de 10%, valorização de ativos e recuo do dólar.
- Cenário de risco: sem reformas, a Selic permaneceria em dois dígitos — hoje o cenário “positivo” do BTG já projeta a taxa em 12% no fim de 2026 — deixando inflação e câmbio sob pressão.
Quando o “barulho” dos EUA ajuda o Brasil
Um ponto curioso destacado por Mansueto é que parte da resiliência recente do real vem de problemas externos.
Ele cita ataques do governo americano à independência do Federal Reserve e medidas protecionistas mais agressivas, o que gerou incerteza institucional nos EUA e incentivou uma diversificação de portfólios globais rumo a países emergentes — entre eles, o Brasil.
Esse enfraquecimento global do dólar, portanto, tem funcionado como um contrapeso ao risco fiscal doméstico.
O recado para o investidor
Para Mansueto, a renda fixa permanece atrativa pela combinação de juros reais elevados e expectativas ainda desancoradas. Mas a entrada mais consistente de capital estrangeiro na bolsa e uma eventual estabilização do câmbio dependem de uma variável conhecida: qual será a solução apresentada pelo país para o problema fiscal após as eleições.
“No fim das contas, tudo volta para o fiscal”, resume.
Assista abaixo à entrevista do painel do Onde Investir em 2026 na íntegra: