E os juros? Inflação mais forte reforça cautela e deve limitar cortes na Selic
A surpresa altista do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março não ficou restrita à inflação: ela também mexeu diretamente com as expectativas para os juros no Brasil.
Na avaliação de economistas, o dado mais forte que o esperado reforça um cenário de maior cautela para o Banco Central, que deve manter um ritmo mais lento no ciclo de cortes da taxa Selic.
Esse movimento já começou a aparecer na curva de juros. Após a divulgação do IPCA, o mercado elevou as apostas de um corte menor na próxima reunião: a probabilidade de redução de 25 pontos-base subiu para 90%, enquanto a chance de um corte mais agressivo, de 50 pontos-base, caiu para apenas 10%.
O ajuste nas expectativas mostra que o mercado rapidamente recalibrou o cenário, diante de uma inflação mais pressionada do que o esperado.
O Banco Daycoval, por exemplo, avalia que a combinação de inflação acima do esperado, pressões vindas do cenário externo e riscos climáticos reforça a necessidade de prudência. A casa mantém a expectativa de um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, indicando continuidade de um ritmo mais gradual de flexibilização.
A leitura é semelhante na Lifetime. Para a economista-chefe Marcela Kawauti, o choque recente de commodities, somado a uma inflação de serviços ainda elevada, tende a reduzir o espaço para quedas mais agressivas da taxa básica.
“Os dados devem resultar em novas revisões para cima nas projeções de inflação, ao mesmo tempo em que limitam o ciclo de queda de juros”, aponta.
Já Leonardo Costa, economista do ASA, vai além e indica que o cenário pode exigir ajustes mais relevantes nas expectativas. Com a inflação surpreendendo no curto prazo, especialmente em alimentos, combustíveis e serviços, a casa vê risco de revisão para cima em sua projeção de IPCA, atualmente em 4,6%.
Esse ambiente mais pressionado torna a tarefa do Banco Central mais delicada, especialmente diante da resiliência dos núcleos de inflação, que seguem rodando em níveis elevados.
Na ponta mais cautelosa, a avaliação é de que os cortes podem até ficar mais distantes.
Para Josias Bento, da GT Capital, o comportamento recente da inflação, tanto corrente quanto nas expectativas, indica que o processo de desinflação ainda enfrenta obstáculos relevantes.
“Mesmo com os juros altos, a inflação não desacelerou de forma consistente. Isso torna o cenário mais desafiador e pode adiar os cortes”, afirma.
Pressão maior vem de fora
O pano de fundo ajuda a explicar essa cautela. Parte das pressões vem de choques de oferta, como a alta das commodities em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. Outra parte, porém, está ligada à demanda, especialmente no setor de serviços, que segue resiliente.
Essa combinação é particularmente incômoda para a política monetária: enquanto choques externos podem ser temporários, a inflação de serviços tende a ser mais persistente.
Diante disso, o consenso entre os analistas é de que o ciclo de queda de juros deve seguir, mas em ritmo mais lento e cada vez mais dependente dos dados. Por ora, o IPCA de março funcionou como um freio de mão puxado no meio do trajeto.