Economistas veem ata do Copom mais suave e destacam que riscos inflacionários devem pesar no ciclo de calibração
O Banco Central (BC) divulgou na manhã desta terça-feira (24) a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), referente à decisão de março, de reduzir o juro básico de 15% para 14,75% ao ano. Segundo o documento, o BC julgou que “neste momento a redução de 0,25% é a mais adequada”.
Além disso, o Copom reconheceu os riscos altistas para a inflação no curto prazo, com o conflito no Oriente Médio, e afirmou que o ciclo de calibração dos juros deve continuar adiante, mas com a magnitude e duração dependentes da evolução de conflitos geopolíticos.
Na ata, o Comitê elevou as estimativas para a inflação para 2026 de 3,4% para 3,9%, enquanto as expectativas para o atual horizonte relevante do BC — o terceiro trimestre de 2027 — subiram de 3,2% em janeiro para 3,3%, ainda abaixo das expectativas do último Boletim Focus, de 3,8%.
Na avaliação de especialistas, a ata trouxe um tom mais suave, ou dovish, em inglês, e aponta que o colegiado não considera, por ora, abandonar o plano de flexibilização monetária, cogitando até cortes maiores, a despeito das incertezas geopolíticas e da disparada dos preços do petróleo.
O mercado espera maior detalhamento quanto às expectativas econômicas do BC no Relatório de Política Monetária (RPM), previsto para esta quinta-feira (27), às 8h (horário de Brasília).
Confiança em calibrar o nível de restrição monetária, a despeito das incertezas globais
O Itaú Unibanco considera que a ata indica que as autoridades seguem confiantes na sua capacidade de calibrar o grau de restrição monetária, apesar da contínua turbulência global. Além disso, o banco avalia que a ata sugere que apenas as opções de cortar 0,25 pp ou 0,50 pp estavam sobre a mesa.
Embora destaque que o processo de desinflação perdeu tração nas leituras mais recentes, o Copom também afirma que uma possível reaceleração da atividade econômica no primeiro trimestre de 2026 não implicará em uma grande mudança em seu cenário atual, afirma o Itaú.
“Considerando tudo, entendemos que o documento é consistente com um corte maior na reunião de abril, o que levaria a taxa básica para 14,25% a.a”, diz o banco, que ressalta que aguardará o RPM e a coletiva de imprensa na quinta-feira para avaliar se há necessidade de calibrar as expectativas para a trajetória da Selic. Por ora, o banco mantém a expectativa de Selic a 12,25% no fim de 2026.
Ata segue com tom dovish do comunicado, sinalizando continuidade nos cortes em 2026
Para a Warren Investimentos, a ata seguiu com o tom mais brando observado no comunicado, sinalizando que, no curto prazo, o colegiado não pretende rever o plano de calibração dos juros, tendo, inclusive, considerado cortes maiores do que 0,25 ponto porcentual.
“O Copom também tratou dos dados de inflação e atividade nos meses iniciais de 2026, para evitar a crítica dovish recebida no comunicado. Mas a mensagem é de continuidade nos cortes ao longo de 2026, com o Copom podendo acelerar o ritmo — o conflito no Oriente Médio será decisivo para os próximos passos”, ressalta a corretora.
Ata não deve diminuir questionamentos sobre tamanho e continuidade do ciclo de calibragem
O UBS Global Wealth Management observa que a ata cumpre o papel de justificar a decisão tomada e de reforçar a coerência interna da estratégia adotada pelo Copom.
No entanto, o banco, em relatório assinado pela economista-chefe, Solange Srour, reforça que o documento não deve diminuir questionamentos importantes sobre o tamanho e a continuidade do ciclo, sobretudo em um ambiente agora marcado por elevada incerteza.
“O cenário externo tornou-se claramente mais incerto, com menção explícita ao agravamento das tensões geopolíticas e seus impactos sobre condições financeiras e commodities. Em um ambiente dessa natureza, seria natural observar um deslocamento do balanço de riscos para o lado inflacionário, ainda que sem ruptura abrupta”, destaca Srour.
Segundo o banco, a manutenção do risco baixista associado à redução de preços de commodities, soa claramente fora do lugar no com o contexto global de hoje — com um choque relevante de energia, elevação expressiva dos preços de fertilizantes e ao encarecimento de outros insumos críticos para cadeias produtivas essenciais.
Além disso, outro ponto que merece maior cautela, para o UBS GWM, é o grau de de confiança implícito na desaceleração da atividade econômica.
“Embora haja evidência de moderação em alguns indicadores, a própria ata reconhece que o mercado de trabalho permanece resiliente, com taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e rendimentos reais crescendo acima da produtividade — um conjunto de sinais que, por si só, recomenda cautela adicional na avaliação do ritmo de desaceleração da demanda”, observa.
Assim, a partir do cenário atual, o UBS GWM considera que a decisão de seguir com o guidance anteriormente sinalizado suscita reflexão ampla e pode ter se mostrado inapropriado ao restringir o espaço para uma discussão mais abertura sobre alternativas, inclusive a de não iniciar o ciclo de calibração naquele momento.
‘Magnitude e duração’ do ciclo de calibragem dependem do conflito no Oriente Médio
Na avaliação do economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), referente à reunião de março, foi considerada neutra e traz um colegiado confiante de que o ciclo de “calibração” continuará adiante, com a “magnitude e duração” dependentes da evolução do cenário, em particular do conflito no Oriente Médio.
Quanto à atividade econômica, o Copom destacou uma “retomada” no primeiro trimestre de 2026 após desaceleração em 2025, mas afirmou que ela é “consistente com as projeções e expectativas”. O Comitê ainda reconheceu alguma elevação nas expectativas de inflação decorrentes de conflitos geopolíticos, mas segue vendo “algum arrefecimento” nas últimas leituras do IPCA, destaca Megale.
A conclusão do Copom de que “neste momento a redução de 0,25 ponto porcentual é mais adequada” mantém a porta aberta para uma aceleração, caso o conflito geopolítico perca intensidade, avalia Megale.
Em relação à decisão de juros, a discussão concentrou-se na magnitude do corte, e não em sua pertinência, aponta o economista-chefe da XP. A conclusão foi de que “neste momento a redução de 0,25% é a mais adequada”. Com isso, na visão da corretora, a porta continua aberta para uma aceleração da magnitude dos cortes na Selic, caso o conflito geopolítico perca intensidade.
“Nosso cenário-base continua a antecipar que as tensões geopolíticas irão arrefecer, a atividade doméstica terá uma recuperação apenas moderada e a inflação permanecerá dentro do intervalo da meta”, diz Megale.
Assim, a corretora mantém a projeção de cortes de 0,50 pp na taxa Selic nas próximas reuniões, até chegar a 12,75%, seguidos por uma pausa para uma avaliação mais detalhada do período eleitoral e da política fiscal à frente.