Economia

Eleições, petróleo, fiscal e guerra: a equação que entra na conta do PIB em 2026

03 mar 2026, 19:00 - atualizado em 03 mar 2026, 17:26
Brasil PIB 2T25
(Imagem: sefa ozel/Getty Images Signature)

A economia brasileira segue avançando, mas em ritmo moderado. A desaceleração ao longo do ano de 2025, vista no Produto Interno Bruto (PIB) divulgado mais cedo, já era esperada, especialmente após o desempenho mais forte de 2024, e reflete um ambiente de juros elevados, inflação ainda acima da meta e maior incerteza no cenário externo.

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Pela ótica setorial, o avanço foi sustentado principalmente pela agropecuária – que voltou a ter peso relevante na composição do crescimento. No entanto, isso acende um sinal de alerta, segundo especialistas. Uma economia muito dependente do setor primário tende a ficar mais exposta a choques e às oscilações do mercado internacional – que podem acontecer a qualquer momento.

Conflito no Oriente Médio

Para o professor da FGV EAESP, Nelson Marconi, o principal vetor de risco hoje está no cenário geopolítico, mesmo que ele esteja “longe de nós”. Uma eventual escalada no conflito no Oriente Médio pode pressionar o petróleo e outros insumos estratégicos, afetando a inflação doméstica. Nesse contexto, o ciclo de redução dos juros poderia ser interrompido ou desacelerado e, consequentemente, o crescimento do país seria afetado.

Na última segunda-feira, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, caminho pelo qual passa cerca de 20% do fornecimento global de petróleo, sem perspectivas de quando abrirá novamente.

“A grande questão é que não sabemos quanto tempo vai durar essa guerra. Se tiver um grande choque no preço do petróleo e nos insumos, isso pode gerar um impacto significativo justamente por segurar esse processo de queda de juros. Para o Brasil, por exemplo, vai depender muito da Petrobras e do quanto ela vai incorporar esse preço ou não”, explicou o professor em entrevista ao Money Times.

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Na prática, um salto no preço internacional do petróleo encarece combustíveis e derivados. Isso pressiona diretamente a inflação por meio da gasolina e do diesel, mas também de forma indireta, já que o transporte mais caro se espalha pela cadeia produtiva e eleva o custo de alimentos, bens industriais e serviços.

Se a inflação voltar a ganhar força, o Banco Central tende a agir com mais cautela. Em vez de acelerar a queda da Selic, pode reduzir o ritmo ou até interromper o ciclo, justamente para evitar que as expectativas de inflação se desancorem.

Exportações também entram na conta

O professor também alertou para um possível efeito no setor externo. Segundo ele, a contribuição das exportações para o crescimento, estimada recentemente em cerca de 0,3 ponto percentual, pode perder força caso o conflito afete o comércio com o Oriente Médio, especialmente no segmento de alimentos.

O Brasil é grande exportador de proteínas e grãos para a região. Se houver restrições logísticas, sanções ou retração da demanda, esse avanço pode virar queda. Marconi exemplificou que, se a exportação caísse para 0,1% (no PIB do 4T25 cresceu 0,3%), isso representaria comparativamente uma queda de 0,2 ponto percentual.

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“Nesse cenário, o PIB perderia parte de um de seus vetores de sustentação justamente em um momento em que o investimento segue contido e o espaço para estímulos é limitado”, explica.

Eleições e fiscal também no radar

Em paralelo, 2026 será um ano eleitoral. O professor da FGV lembra que, historicamente, esse ambiente tende a vir acompanhado de algum grau de estímulo financeiro à população e, consequentemente, ao resultado fiscal. A grande questão será o tamanho do espaço de manobra do governo e a percepção do mercado sobre a sustentabilidade das contas públicas. Um estímulo maior pode sustentar a atividade no curto prazo, mas também elevar a pressão sobre inflação, juros e prêmio de risco.

Assim, o PIB entra em 2026 cercado por uma equação delicada: juros em queda, mas com limites; crescimento ainda dependente do agro; investimentos contidos; risco geopolítico no radar; e um cenário fiscal que pode ganhar contornos mais expansionistas.

O ritmo da economia daqui para frente não dependerá apenas do impulso doméstico, mas da interação entre todos esses fatores envolvidos em um ambiente geopolítico cada vez mais segregado.

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Com isso no radar, Marconi avalia que o PIB este ano tende a crescer no mesmo ritmo de 2025, por volta dos 2,3%.

A última mediana das projeções do Boletim Focus – que reúne a estimativa de diversas instituições do mercado financeiro para os indicadores da economia brasileira – para o PIB em 2026 era de 1,82%.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
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