Ânima (ANIM3), Ser (SEER3) e Cogna (COGN3): Enamed adiciona ruído regulatório ao setor de educação da B3
A divulgação dos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) introduziu uma nova camada de incerteza regulatória para o setor de educação no Brasil e acendeu um alerta entre investidores de companhias listadas com exposição relevante a cursos de Medicina.
O exame, aplicado a estudantes do último ano e coordenado pelo Inep, passa a servir como instrumento de supervisão, abrindo espaço para sanções que vão desde o congelamento da expansão até a redução de vagas e a suspensão do acesso a programas federais.
Após a divulgação, os papéis da Ser Educacional (SEER3) e da Ânima (ANIM3) fecharam entre as maiores quedas da B3, com baixas de 6,77% e 6,48%, respectivamente. A Cogna (COGN3) recuou 1,91%, enquanto a Yduqs (YDUQ3) caiu 1,90%.
Dos cerca de 350 cursos avaliados, aproximadamente um terço apresentou desempenho insatisfatório, com proficiência abaixo de 60%.
Na prática, cursos enquadrados nos conceitos 1 e 2 entram em um regime de restrições progressivas: proficiência inferior a 30% pode levar à suspensão total de novas vagas; entre 30% e 40%, à redução de 50%; e, entre 40% e 50%, a um corte de 25%. Cursos entre 50% e 60% não sofrem redução imediata, mas ficam impedidos de expandir.
Como resposta, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) informou que está acompanhando a divulgação dos resultados do Enamed. “Análises de instituições de todo o país indicam divergência de dados entre os que foram reportados como insumos, em dezembro passado, em relação ao número de estudantes proficientes de seus cursos, e os divulgados agora”, afirmou a entidade, acrescentando que aguarda esclarecimentos técnicos do MEC e do Inep.
Exposição das empresas ao setor
O J.P. Morgan chamou atenção para a exposição do mix de receitas ao segmento de Medicina, fator que pode amplificar ou suavizar os efeitos do Enamed entre as companhias listadas.
Segundo estimativas do banco, a Afya, listada em Nova York, concentra cerca de 76% da receita em cursos de Medicina, seguida por Ânima (37%), Yduqs (23%) e Ser Educacional (22%). A Cogna tem exposição mais limitada, em torno de 12%.
Já quanto ao impacto nas vagas, estimativas do J.P. Morgan, do Citi e do BTG Pactual indicam que a Yduqs pode ter até 15% das vagas impactadas, enquanto a Ser Educacional teria algo em torno de 13%. Afya, Ânima e Cogna também aparecem na lista, mas com impactos percentualmente menores.
Na avaliação do Citi, os resultados têm viés negativo não apenas pelo impacto potencial sobre lucros e crescimento, mas também pelos efeitos reputacionais. “Apesar de incertos e provavelmente transitórios, vemos os resultados de forma negativa por poderem limitar o crescimento no curto prazo, pesar sobre as marcas das instituições e aumentar a assimetria regulatória”, afirma o banco.
Ainda assim, a equipe liderada por Pedro Chaves, head de educação do Citi, pondera que a menor oferta pode beneficiar cursos não afetados. “A redução da oferta pode melhorar o ambiente competitivo para os programas que ficaram de fora das restrições”, diz.
Maior impacto regulatório do que no balanço
A equipe do Itaú BBA, liderada por Vinicius Figueiredo, tem a mesma visão, ressaltando que uma eventual redução da oferta total de vagas pode criar um ambiente de precificação mais favorável para o ciclo de ingresso de 2027.
Para o banco, o fato de que o efeito econômico direto tende a ser limitado: mesmo assumindo cortes de vagas em 2027, o impacto estimado no Ebitda consolidado das companhias fica, em geral, entre 0% e 1%
O BTG Pactual vai na mesma linha. Para eles, o Enamed adiciona mais ruído regulatório do que risco estrutural ao negócio de educação médica. “O exame introduz barulho regulatório em um segmento que segue atrativo e com forte geração de caixa livre”, afirma a equipe liderada por Samuel Alves.
Segundo o BTG, por se tratar da primeira edição do exame, é esperado que as companhias busquem medidas administrativas e legais, defendendo um período de transição antes da aplicação de qualquer sanção econômica.
Em comum, as casas concordam que a volatilidade das ações deve persistir no curto prazo, refletindo a incerteza regulatória e o risco jurídico. No médio prazo, porém, a avaliação é de impacto assimétrico: grupos mais expostos podem enfrentar limitações pontuais de crescimento, enquanto instituições não afetadas tendem a se beneficiar de menor concorrência e oferta mais restrita.