Entre crescimento e tensão: O que 2026 reserva para a economia brasileira
Depois de um período de juros altos e incertezas fiscais, 2026 deve ser um ano de transição para a economia brasileira. A expectativa é de crescimento moderado do PIB, puxado principalmente pelo setor de serviços e pelos investimentos em infraestrutura, enquanto a indústria e o agronegócio tendem a avançar de forma mais lenta.
A inflação, porém, segue como um desafio. A queda dos preços deve acontecer aos poucos, ainda pressionada pela alta de alguns alimentos, pela inércia inflacionária e por riscos vindos do câmbio e de estímulos à renda. Esse cenário mantém os juros em nível elevado por mais tempo e dificulta uma convergência rápida da inflação para o centro da meta.
Além disso, o ano eleitoral entra no radar dos investidores. Com a proximidade das eleições presidenciais, a economia e os mercados devem conviver com mais volatilidade, à medida que pesquisas avançam e os sinais sobre a política econômica futura ficam mais claros. O grau de compromisso dos candidatos com o ajuste fiscal e a previsibilidade das regras será determinante para o humor do mercado.
Veja o que esperar da economia brasileira em 2026
Atividade econômica
O setor de serviços — especialmente os serviços às famílias, o comércio e alguns segmentos ligados ao digital e ao financeiro — além das obras de infraestrutura, devem sustentar o crescimento da economia brasileira em 2026. É o que indicam as projeções de Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, que apontam para uma alta de 1,7% do PIB no ano.
“Em contrapartida, a indústria de transformação segue em recuperação lenta, com algum alívio vindo da queda dos juros no segundo semestre, mas ainda operando abaixo do potencial, diante do elevado custo de capital e de gargalos de competitividade. Já a agropecuária tende a apresentar crescimento mais moderado, dependente do clima — que segue favorável — e de preços internacionais mais baixos, após safras fortes recentes”, afirma.
O consumo das famílias deve permanecer positivo, porém em ritmo mais contido, refletindo o fim dos impulsos pós-pandemia e uma perda gradual de fôlego do mercado de trabalho. Ainda assim, medidas legislativas — como a isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil e programas ligados a gás e energia — devem ajudar a mitigar a desaceleração, criando um contraponto aos efeitos da política monetária restritiva.
O investimento privado, por sua vez, tende a reagir de forma um pouco mais favorável à queda gradual dos juros e ao aumento da previsibilidade regulatória, desde que a confiança no ambiente macroeconômico seja preservada.
Na Warren, os estrategistas Luis Felipe Vital, Andréa Angelo e Julia Galli projetam crescimento de 1,8% da atividade econômica e avaliam que os riscos para o PIB em 2026 são menores do que em anos anteriores.
“Em 2025, lidamos com alguns riscos no cenário externo que não se concretizaram, como pressões inflacionárias nos Estados Unidos associadas às políticas comerciais e a possibilidade de uma desaceleração global mais intensa. No campo geopolítico, o quadro hoje também é mais favorável em comparação ao início do ano”, afirmam.
Inflação
Para 2026, a equipe da Warren avalia que a inflação tende a ser mais pressionada do que a observada no ano anterior, com recomposição relevante dos preços de leite e derivados, frutas e carnes no grupo de alimentos.
Além disso, há duas pressões adicionais no radar. A primeira é a possibilidade de uma reversão parcial do câmbio, que pode adicionar até 30 pontos-base à inflação. A segunda está relacionada a estímulos à atividade e à renda — incluindo mudanças no Imposto de Renda, no FGTS e no crédito consignado —, representando um risco extra de cerca de 40 pontos-base.
“Além desses fatores específicos, os últimos resultados de inflação mostram um ponto de atenção importante: os componentes inerciais. Eles vêm acelerando e devem permanecer em níveis elevados ao longo do primeiro semestre de 2026, contribuindo para um ambiente mais desafiador”, dizem os estrategistas.
As projeções do PicPay apontam para um IPCA de 4,2% em 2026, considerando um processo de desinflação gradual em um cenário de serviços ainda resilientes, reajustes salariais acima dos ganhos de produtividade e inércia inflacionária acumulada nos últimos anos.
Segundo Benedito, o prêmio de risco associado ao quadro fiscal dificulta uma queda mais rápida das expectativas inflacionárias, mesmo com a política monetária em território contracionista.
“Entre os principais riscos, monitoramos choques climáticos que afetem alimentos, reajustes de preços administrados acima do previsto, pressões adicionais em serviços e uma eventual piora do cenário fiscal ou externo que gere volatilidade cambial. Assim, embora o processo de desinflação continue, a convergência ao centro da meta tende a ocorrer em um horizonte mais longo”, afirma.
Câmbio
No câmbio, as projeções indicam dólar a R$ 5,45 pela Warren e a R$ 5,60 pelo PicPay. A avaliação, porém, é semelhante: 2026 deve ser marcado por maior volatilidade, sobretudo por conta das eleições.
“A taxa de câmbio deve seguir sensível ao diferencial de juros entre Brasil e exterior, à percepção sobre o risco fiscal, aos fluxos de investimentos em portfólio e ao apetite global por risco. O ano eleitoral tende a adicionar volatilidade, com movimentos mais bruscos em torno de pesquisas e sinais sobre a política econômica futura”, afirma a economista do PicPay.
Fiscal
No campo fiscal — principal fonte de preocupação do mercado — o cenário segue desafiador, com necessidade de geração de superávits mais robustos para estabilizar a dívida pública.
“As projeções fiscais apontam para um quadro em que o crescimento das despesas obrigatórias, combinado a uma redução expressiva das despesas discricionárias, tende a comprometer o funcionamento da máquina pública a partir de 2027. Embora esteja em vigor um arcabouço fiscal que previa um ajuste lento e gradual, o elevado número de exceções e medidas que contornam suas restrições reforça a percepção de insuficiência”, avalia a equipe da Warren.
Benedito acrescenta que o nível elevado da dívida em relação ao PIB — e sua trajetória ascendente — é um ponto central de atenção, pois eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores e encarece o custo de rolagem da dívida.
“O risco de revisão de metas fiscais existe, especialmente se a combinação de crescimento e arrecadação frustrar expectativas. A credibilidade do arcabouço, porém, depende justamente de evitar flexibilizações recorrentes”, afirma.
Selic
O mercado projeta que a taxa básica de juros encerre 2026 em 12%. A principal dúvida é o momento de início do ciclo de afrouxamento monetário. Na última reunião de 2025, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu as chances de um corte já em janeiro, o que levou a maioria dos analistas a apostar em ajustes a partir de março.
“A política monetária segue em campo contracionista, o que consideramos suficiente para ancorar a inflação, desde que o arcabouço fiscal permaneça crível e não haja choques de oferta persistentes. Em outras palavras, a eficácia da política monetária depende da coordenação entre as políticas econômicas”, afirma Benedito.
Eleições no radar
Embora as eleições estejam marcadas para outubro, a corrida eleitoral já começou. Historicamente, o período é marcado por maior volatilidade dos ativos, aumento dos prêmios de risco e maior aversão a prazos longos, especialmente à medida que as pesquisas avançam e os programas econômicos ganham clareza.
Por outro lado, o apetite dos investidores pode se recuperar rapidamente caso o resultado sinalize continuidade de uma agenda econômica responsável.
“O ano eleitoral eleva naturalmente a incerteza, mas o que faz preço é o compromisso concreto com o arcabouço fiscal e com a previsibilidade da política econômica. O impacto final dependerá do grau de compromisso dos candidatos com a disciplina fiscal, do respeito à autonomia do Banco Central e da composição do Congresso”, afirma a economista do PicPay.
Já a equipe da Warren pondera que a reação do mercado em eleições passadas não necessariamente serve de referência para 2026.
“Do ponto de vista econômico, teremos uma eleição durante um ciclo de queda de juros, com um colchão de liquidez do Tesouro bastante confortável, reservas internacionais robustas, inflação sob controle e uma economia com espaço para acelerar o crescimento. Esse conjunto tende a oferecer maior tranquilidade, mesmo em cenários de elevada incerteza eleitoral”, conclui.