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Entrevista: 2016 foi o ano em que Taleb venceu Buffett, diz Felipe Miranda

Gustavo Kahil
15/12/2016 - 12:25

Os adjetivos não servem para qualificar o que foi 2016. O ano do imponderável, inexplicável, surpreendente, trágico…. Como defini-lo? Para o estrategista-chefe da Empiricus Research, Felipe Miranda, este será lembrado principalmente pela fragilidade das projeções econômicas em um mundo que é, acima de tudo, humano. “Foi o ano em que Nassim Nicholas Taleb superou Warren Buffett”, resume.

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Miranda nunca escondeu a sua fascinação por Taleb. O autor dos indispensáveis “A lógica do Cisne Negro” e “Antifrágil” sempre buscou jogar luz à importância da aleatoriedade e da desordem no mundo dos investimentos. E o ano que passou certamente será um belo período para uma abordagem empírica das suas teorias. Não que Buffett tenha perdido a razão, mas a razão – ou o que se pensava ser ela – perdeu espaço em 2016.

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Em entrevista ao Money Times, Miranda fala sobre o que passamos neste ano e, principalmente, o que esperar daqui adiante em um Brasil que vive mudanças estruturais que podem mudar como pensamos a economia do país e planejamos os investimentos. Confira abaixo a íntegra da conversa:

Felipe Miranda

Qual a lição que fica para o investidor em 2016?

O investidor precisa entender que 2016 foi um ano que a convexidade superou o entendimento. Nassim Nicholas Taleb superou Warren Buffett. Todo mundo que tentou adivinhar os fenômenos de 2016 se deu mal. É só lembrar: ninguém previu o Brexit, a eleição de Donald Trump…o que os grandes bancos fizeram? Pagaram as melhores pesquisas do mundo e indicaram a ponta errada do mercado aos clientes.

Indicamos aos nossos clientes, por exemplo, comprar put da Petrobras. Investimentos a R$ 0,20 e vendemos a R$ 1,60. É preciso parar de tenta antever o futuro e passar a olhar para o portfólio. Essa é a lição que precisamos aguardar o futuro.

Tínhamos uma falsa sensação de controle. A informação disponível já está no preço. Ninguém via o impeachment antes de ele acontecer? Agora, por exemplo, precisamos saber que o presidente Temer pode cair com as delações. Já tivemos uma. E as outras? E o que você não está vendo?

Em um comentário recente, o gestor da Skopos, Pedro Cerize, lembrou que o mais importante neste novo governo é a aprovação das medidas fiscais e que, por ele, Temer poderia até sair depois disso. Neste sentido, dá para pensar que passadas as reformas o mercado não irá mais oscilar tanto com o noticiário político de Brasília?

Acho que é até mais do que isso. Caminhamos para o cenário de a política perder espaço até um pouco antes. Acho que vai ficar cada vez mais cristalino que a reforma fiscal não é uma opção do Temer, mas do Brasil. Claro que terá o ranger de dentes da oposição, mas do ponto de visa estrutural não dá mais para voltar atrás.

Cedo ou tarde, estamos caminhando para resolver essa que é uma questão transformacional, do teto de gastos, e a reforma da previdência. Teremos um bolo para dividir. Não adianta mais, por exemplo, querer ter uma Lei Rouanet indefinida. Quem quiser isso terá que optar por menos hospitais. A questão fiscal transcende uma opção de governo. Mesmo que caia o Temer, o Congresso está comprometido com a causa. É uma agenda liberal que está sendo imposta pela necessidade. A PEC sozinha não resolve, mas traz a necessidade objetiva de outras coisas.

A cada delação ou capa de domingo das revistas, o mercado vende na segunda. Aí quando chega na quinta-feira já fica em alerta porque não quer estar comprado no domingo. Prefiro um fim terrível a um terror sem fim. Precisamos levantar o tapete e limpar esse capítulo do “Lulopetismo” e caminhar. Como o investidor vai investir no longo prazo se não sabe quem vai assumir amanhã? De que forma o consumidor vai comprar uma casa e assumir um empréstimo de longo prazo?

O Congresso ainda é a favor do ajuste e, mesmo que o Temer caia, as coisas tendem a passar com quem eles escolherem na eleição indireta. A esquerda é completamente minoria.

Não tenho muito medo de uma queda do Temer. A faxina é  mesmo uma bagunça, mas a casa fica mais muito mais cheirosa depois.

Há uma grande expectativa para que o ano que vem traga um retorno da lucratividade em algumas empresas pelo aumento da produtividade. Isso está sob risco com a tendência de baixa para o crescimento e que coloca a recuperação de 2017 em xeque?

A recuperação está mais lenta e tardia do que todos esperavam, mas ainda não é para abandonar o otimismo com a Bolsa. Em algum momento de 2017, as reformas vão passar. A Selic pode cair para perto de 9% e, olhando para a regra de Taylor, chegaria a 8% no final de 2017. Isso seria um novo país.

O importante é entender que o portfólio agora precisa ser diferente. Com o juro nesse nível será preciso olhar para a Bolsa. Os investidores institucionais e estrangeiros estão “underweight” [alocação abaixo da média] no Brasil. Além disso, há os fundos de pensão. Para eles, a situação fica ainda mais difícil pela meta atuarial que é inflação + 6%. E isso não vai mais existir com a NTN-B. Isso tudo pinta um panorama favorável para ações.

Agora precisaremos olhar 2018, que poderá ter um crescimento de 3%. As empresas terão cortados custos e maiores margens operacional e financeira. É um efeito triplo: mais atratividade de ações, o valuation mais atraente porque o custo do capital cairá muito e o efeito sobe a despesa financeira da empresa. A margem líquida de 2018 poderá aumentar de forma brutal.

O Brasil ficou nos últimos meses bem para trás com a turbulência política. Sou comprador de Bolsa no longo prazo, ponderando que as margens estão depreciadas na comparação histórica, como o Itaú. Isso traria um efeito propulsor para a bolsa.

Temos que olhar para 2018 já que 2017 parece perdido?

Neste momento mais relevante é se o panorama global ainda é positivo para emergentes. Me parece que sim porque as commodities aumentaram de preço.  E, além disso, o juro internacional continuará baixo, mesmo com 3 altas no ano que vem [nos EUA]. Ainda há liquidez global forte. Aqui não teremos crescimento em 2017, mas os lucros vão voltar em 2018. O que o mercado precisa ter é um plano de voo crível. Seria melhor que a economia crescesse, mas só de ver ganhando tração é suficiente.

O Ibovespa tem sido puxado em 2016 principalmente pelas grandes blue chips. Esse vai ser o tema do ano que vem também?

Sobre as commodities é sempre complicado falar. O rali foi grande. Não dá para fazer qualquer afirmação e não são as ações que eu gosto. O equilíbrio do mercado de ferro parece que tem mais potencial de baixa do que alta. O petróleo eu penso a mesma coisa porque a dinâmica mudou com o xisto nos EUA. Há mais espaço para cair do que subir. Os bancos podem ser destaque com a queda da inadimplência e o varejo, com uma base de comparação terrível, pode ser motivado por uma recuperação forte. E, para completar, infraestrutura. É preciso aumentar a produtividade brasileira e as empresas são muito sensíveis às taxas de juros, principalmente as de concessão.

Em bancos o Itaú é um nome óbvio em bancos. No consumo, sugiro a Hypermarcas. É uma opção defensiva e geradora de caixa. Gosto também da Guararapes (Lojas Riachuelo) para o longo prazo e pegar o varejo. Por último, vale a pena a Rumo. A empresa opera ferrovias e participa de vários setores da economia.

Última atualização por - 05/11/2017 - 14:08

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