Ex-diretores do BC veem Copom com espaço para cortar juros
As avaliações de Bruno Serra, gestor da Itaú Asset e ex-diretor do Banco Central, e de Rodrigo Azevedo, gestor da Ibiúna e também ex-diretor do BC, apontam para um mesmo diagnóstico: o Copom (Comitê de Política Monetária) ganhou espaço para iniciar um ciclo de cortes de juros, apoiada pela melhora do cenário global e pela desaceleração da inflação.
Para Bruno Serra, a Selic em 15% precisa ser lida em um contexto histórico. “Em mais de 20 anos, a gente não teve Selic a 15%. Todas as vezes em que a taxa esteve nesse patamar ou próxima disso, foi em momentos de estresse muito grande. Esse juro foi colocado para comprar credibilidade em um ambiente de choque fiscal e institucional”, afirmou em evento do UBS BB, realizado nesta terça-feita (27).
Segundo ele, passada essa fase, o Copom agora tem base para começar a reduzir o aperto. “Eu acho que o ciclo pode começar em março, com 50 pontos-base, e ganhar tração ao longo do ano. Partindo de 15%, cortes menores do que meio ponto parecem desnecessários.”, disse.
Na sua leitura, o espaço para afrouxamento é relevante. “Com a inflação rodando perto de 3% e expectativas mais bem comportadas, dá para imaginar a taxa caminhando para algo em torno de 11%. Em algumas reuniões, não dá para descartar movimentos maiores do que 50”, acrescentou.
Rodrigo Azevedo concorda com a direção, mas destacou que a análise não deve se apoiar apenas na projeção central do Banco Central. “A projeção de inflação é feita 18 meses à frente, em um ambiente de incerteza gigantesca. Ela é útil como exercício analítico, mas não pode ser o único guia para a decisão de política monetária”, afirmou.
Para ele, o aperto forte do ano passado foi justificado pela assimetria de riscos. “Naquele momento, a probabilidade de a inflação ser maior era muito superior à de ela ser menor. Diante disso, o Banco Central optou por um choque forte, elevando a Selic para 15% para ancorar expectativas e comprar credibilidade”, disse.
Agora, o balanço mudou. “Com a inflação vindo abaixo do esperado, o câmbio apreciando e a incerteza diminuindo, a distribuição de probabilidades se deslocou para baixo. Se esse risco mudou, esse juro de 15% passou a ficar excessivamente apertado”, lembrou.
Nesse contexto, Azevedo defende a devolução do aperto acumulado. “É razoável retirar os cerca de 300 pontos-base que foram colocados lá atrás. Mesmo com a Selic em 12%, a política monetária continuaria bastante restritiva, dado o nível atual da inflação”, disse.
Cenário internacional e Copom
Os dois gestores também destacaram o papel do cenário internacional na leitura do Copom.
Para Bruno Serra, o mundo passa por uma reprecificação global, com redução da sobrealocação em ativos americanos. “Depois de anos de desempenho muito superior dos Estados Unidos, é natural que os investidores passem a reduzir marginalmente essa exposição. Esse processo é grande em volume e tem impacto relevante sobre preços e câmbio”, afirmou.
Segundo ele, esse movimento ajuda a explicar o comportamento recente do real. “O Banco Central olha para a trajetória do câmbio para frente porque ela entra diretamente na projeção de inflação. Esse pano de fundo global ajuda o Brasil, independentemente do ruído político doméstico”, disse.
Azevedo reforçou esse ponto ao falar da volatilidade internacional. “A taxa de juros americana é a taxa livre de risco do mundo. Quando a volatilidade da curva de Treasuries cai, os ativos passam a refletir mais seus próprios fundamentos, e isso cria um ambiente muito mais confortável para exposição a risco”, afirmou.
Sobre a eleição, ambos relativizaram o impacto imediato na condução da política monetária. “A eleição influencia, claro, mas menos do que as pessoas imaginam no curto prazo”, disse Bruno Serra.
Já Rodrigo Azevedo alertou que o verdadeiro divisor de águas está no fiscal. “No dia seguinte à eleição, a história fica binária: ou há um ajuste fiscal crível, ou não há. É isso que vai definir a trajetória dos juros no médio prazo”, concluiu.