Existe um país sob um dos melhores países do mundo — e quase ninguém se deu conta
São mais de 1.400 túneis. Entre passagens subterrâneas, vias rodoviárias e linhas ferroviárias, eles somam mais de 2 mil quilômetros de extensão, em sua maioria sob os Alpes. Na prática, é como se houvesse um país inteiro operando fora da vista, abaixo de um dos melhores lugares do mundo para viver: a Suíça.
Enquanto grande parte do planeta ainda debate como ampliar estradas ou aeroportos, a Suíça decidiu seguir por outro caminho: cavar túneis. O trecho mais emblemático tem 57 quilômetros de extensão. Ele corta os Alpes, uma das cadeias montanhosas mais desafiadoras do planeta.
É o Túnel de Base do Gotardo, atualmente o maior túnel ferroviário do mundo. A obra transformou a logística europeia e reduziu o tempo de deslocamento entre o norte e o sul do continente.
Como tudo começou
A ideia de atravessar os Alpes pelo subsolo não surgiu no século 21. Ela acompanha a história moderna do país desde o século 19, quando o primeiro túnel ferroviário do Gotardo, inaugurado em 1882, já havia encurtado caminhos e alterado o comércio europeu.
Naquele período, a construção foi vista como um feito quase impossível e custou a vida de centenas de trabalhadores.
Com o passar do tempo, o túnel se tornou pequeno para as novas demandas do transporte. As rampas acentuadas limitavam a velocidade e a capacidade de carga, exigindo locomotivas adicionais para vencer a montanha.
Foi nesse cenário que, nos anos 1990, surgiu a decisão de não subir os Alpes, mas atravessá-los por baixo.
17 anos escavando
As obras começaram em 1999 e foram concluídas em 2016. Foram quase duas décadas de trabalho, com milhares de operários atuando simultaneamente e o uso de tuneladoras gigantes para perfurar rochas extremamente duras.
O desafio não era apenas o comprimento. Em alguns pontos, o túnel passa por mais de 2 quilômetros abaixo do topo das montanhas, enfrentando:
- temperaturas internas acima de 40 °C em determinados trechos;
- pressões geológicas extremas;
- rochas muito duras e instáveis.
Um atalho estratégico sob as montanhas
Com 57,1 km de extensão, o túnel liga Erstfeld, no norte da Suíça, a Bodio, no sul, cruzando os Alpes pelo subsolo. Em vez de subir e descer serras, os trens seguem quase em linha reta, a baixa altitude, economizando tempo, energia e desgaste.
Na prática, o túnel:
- reduz o fluxo de caminhões nas estradas alpinas;
- diminui os impactos ambientais;
- encurta as viagens entre a Suíça e a Itália.
Quanto tempo leva para atravessar os Alpes por baixo
Antes do túnel, a travessia ferroviária pelos Alpes era mais lenta, sinuosa e limitada pelo relevo. Com o Gotardo em operação, o efeito é imediato no relógio:
- travessia do túnel: cerca de 20 minutos;
- velocidade máxima: até 250 km/h em trens de passageiros;
- redução no tempo de viagem: até 1 hora a menos em rotas como Zurique–Milão.
Para o transporte de cargas, o ganho vai além do tempo. Trens mais longos e pesados, com menor consumo de energia, conseguem cruzar os Alpes sem enfrentar rampas extremas.
Quanto custou atravessar os Alpes
O projeto teve custo aproximado de 12 bilhões de francos suíços, valor que hoje equivale a cerca de R$ 70 bilhões.
O investimento foi aprovado em referendo popular, financiado ao longo de anos e tratado como uma política de Estado.
O Gotardo faz parte do corredor ferroviário Roterdã–Gênova, um dos principais eixos logísticos da Europa, ligando portos do Mar do Norte ao Mediterrâneo.
À primeira vista, o sistema de túneis sob a montanhosa Suíça pode parecer apenas uma questão de conveniência. As viagens ficam mais rápidas, as estradas têm menos curvas e o custo do frete diminui.
Para o governo suíço, porém, o impacto é também ambiental. Além de reduzir as emissões de poluentes, os projetos evitam a devastação em larga escala de áreas naturais.