Fed mantém juros nos EUA entre 3,50% e 3,75%, mas expõe divergências sobre cortes
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manteve, nesta quarta-feira (29), os juros de referência dos Estados Unidos (EUA) no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano.
A decisão era a aposta majoritária para a reunião de julho, com 66,3% dos agentes do mercando prevendo manutenção pela manhã, de acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group.
O banco central afirmou que a economia norte-americana continua se expandindo em ritmo sólido, mesmo diante das incertezas associadas ao conflito no Oriente Médio.
A autoridade monetária destacou ainda a força dos investimentos, o avanço da produtividade e a resiliência do mercado de trabalho, com desemprego estável e criação de vagas acompanhando o crescimento da força de trabalho.
Sobre a inflação, o Comitê ressaltou que o indicador segue acima da meta de 2%, pressionado, em parte, por choques de oferta e pela alta de preços em setores específicos, como energia. O banco central reafirmou que continuará perseguindo a estabilidade de preços.
A decisão desta vez não foi unânime. Votaram contra a medida de política monetária Beth M. Hammack, Neel Kashkari e Lorie K. Logan, que preferiram elevar a meta para a taxa de juros dos fundos federais em 0,25 ponto percentual nesta reunião.
O que dizem os especialistas?
A decisão do Fed veio dentro do esperado pelo mercado, mas a divisão interna do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) chamou a atenção dos analistas. O voto de três dirigentes a favor de uma alta de 25 pontos-base foi interpretado como um sinal de preocupação crescente com a trajetória da inflação e reforçou o tom mais hawkish da autoridade monetária.
Para André Valério, economista sênior do Inter, a principal mensagem da reunião foi justamente o aumento da divergência dentro do comitê. Segundo ele, a decisão marcou a primeira vez desde 2016 em que três membros do Fed votaram na mesma direção contra o consenso da maioria.
“O mercado precifica quase certamente uma alta em setembro, mas a dinâmica inflacionária até lá será determinante para o próximo passo do Fed”, afirmou Valério. O economista destacou ainda que a combinação entre a incerteza do conflito no Oriente Médio e o petróleo próximo dos US$ 100 por barril pode dificultar uma desaceleração mais forte da inflação e abrir espaço para que mais membros defendam uma elevação dos juros.
Na avaliação de Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, o comunicado manteve o tom conservador adotado pelo Fed desde a chegada de Kevin Warsh, com poucas mudanças em relação à reunião anterior. Para ela, a autoridade monetária voltou a reforçar o compromisso com a estabilidade de preços e destacou que os choques de oferta ligados ao conflito no Oriente Médio contribuíram para a pressão recente sobre os preços.
A economista ressaltou que os votos favoráveis a uma alta vieram de dirigentes que já vinham defendendo uma política monetária mais restritiva diante da inflação acima da meta de 2%. Apesar disso, ela afirmou que nem o comunicado nem a coletiva de Warsh trouxeram uma sinalização clara sobre os próximos passos do banco central americano.
Já Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, avaliou que o comunicado reforçou o viés mais duro do Fed. Segundo ela, a autoridade monetária deve manter os juros em patamar elevado diante das incertezas no cenário internacional.
Para Kawauti, a evolução dos dados de inflação e o comportamento das commodities serão determinantes para os próximos movimentos. “A depender dos dados e da evolução dos preços de commodities, pode, inclusive, haver alta de juros ao final do ano”, afirmou.
E o mercado?
Os índices de Wall Street fecharam em forte queda após a decisão do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) de manter os juros inalterados, com os investidores avaliando se o BC conseguirá manter a inflação sob controle.
Já o rendimento do título do Tesouro com vencimento em 30 anos, referência para o mercado de hipotecas, atingiu o nível mais alto desde julho de 2007. O yield do título bateu 5,201%, alta de 10,5 pontos-base ante o fechamento anterior.