O imbróglio que conecta a Fictor ao banco Master, à Reag e a Nelson Tanure
Não está sendo fácil definir quem são os principais credores da Fictor, que entrou com pedido de recuperação judicial no último domingo (1º). No documento protocolado na Justiça de São Paulo, a empresa alegou dever as maiores quantias à American Express (R$ 893 milhões) e à Sefer Investimentos (R$ 430 milhões).
Ambas, porém, questionaram essa afirmação. A American Express fez isso na segunda-feira (2), através de nota. Nesta terça-feira (3), foi a vez da Sefer, dona de uma gestora de ativos e de uma distribuidora de valores na Faria Lima, por uma petição no processo de RJ. A instituição alega ser apenas representante legal de terceiros.
Em resposta quanto à indagação da Sefer, a Fictor afirma que adquiriu, em 16 de outubro, parte de um fundo de direitos creditórios (FIDC) chamado Krispy, que seria, segundo ela, administrado pela Sefer em nome da Master Holding. A aquisição segundo a companhia explica a dívida de R$ 430 milhões, sendo que algumas parcelas já foram pagas.
A Master Holding é a holding offshore do CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, que reúne seus investimentos nas Ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal. A Sefer aparece em documentos como a sua despachante no Brasil.
Um mês depois da aquisição da fatia no fundo, no dia 17 de novembro, a Fictor tentou comprar o Banco Master inteiro por R$ 3 bilhões. Na manhã seguinte à oferta, houve a liquidação do Master pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro.
“A Fictor adquiriu cotas de um fundo de direitos creditórios. Este fundo era administrado pela Sefer, representante legal da Master Holding no Brasil”, diz a posição oficial da Fictor. “O contrato previa pagamento à vista e parcelas subsequentes, conforme acertado entre as pares”, complementa, acrescentando que várias instituições de primeira linha também adquiriram ativos do Master.
Oficialmente, porém, a história é um pouco diferente. Documentos oficiais referentes ao fundo Krispy apontam que sua administração e custódia ficavam oficialmente a cargo não da Sefer, mas da Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, assim como a gestão ficava a cargo da Reag JUS Gestão. Ambas são de João Carlos Mansur.
Para entender o imbróglio, a Reag foi alvo da operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, em agosto de 2025, por ligações com o PCC e com crime organizado. A instituição acabou sendo liquidada pelo Banco Central após a segunda parte da Compliance Zero, no mês passado.
Mudança no comando do fundo Krispy
Após a Fictor adquirir parte do fundo Krispy, ele passou por uma reorganização relevante. No dia 28 de outubro, uma assembleia realizou mudanças completas na sua estrutura de prestação de serviços.
Segundo as últimas informações que constam no site da B3, tanto a custódia quanto a gestão do fundo passaram a ser, então, realizadas pela Trustee, de Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro no Master. A Trustee é apontada também como gestora de fundos do empresário Nelson Tanure.
Segundo o demonstrativo mais recente, de dezembro do ano passado, o fundo Krispy tem uma carteira de cerca de R$ 5,43 bilhões alocada totalmente em direitos creditórios.