Fim da RJ da Americanas (AMER3): O que vem depois da fraude contábil? CEO conta desafios e detalha nova fase
Desde janeiro de 2023, quando as manchetes dos jornais foram tomadas pelo anúncio de um rombo contábil em uma das varejistas mais tradicionais do Brasil, a Americanas (AMER3) vive uma trajetória de reorganização da empresa, em meio à recuperação judicial que precisou enfrentar. Com o cumprimento do plano, no dia 25 de março a companhia pediu a saída do processo.
Em entrevista ao Money Times, o CEO da companhia, Fernando Soares, contou que a disciplina e a coragem de tomar as decisões corretas, no tempo correto, foram os maiores desafios ao longo desses anos. Segundo o executivo, desafio ainda maior é dar continuidade a essa agenda, mas é justamente esse o foco da Americanas agora.
“Houve uma transformação muito importante da companhia. O resultado pode ser visto nos números de 2025. A gente sabe que ainda tem muito desafio e muita oportunidade, mas entendemos que o trabalho foi bem feito”, disse Soares.
Soares assumiu a presidência da Americanas no segundo semestre de 2025. Antes, ocupava a posição de diretor de operações da companhia.
“[Esse momento] é emblemático e super importante para nós. São esses dois elementos: o plano cumprido e a transformação muito bem executada. Agora entra uma janela nova que é o futuro. Ou seja, pegar esse plano que funcionou bem em 2025 e potencializar ele”, afirmou o CEO.
O pedido de saída da recuperação judicial, vale destacar, ainda precisa da aprovação do Juízo da 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro. A Americanas estima que isso ocorra dentro de quatro meses, dados os trâmites envolvidos no processo.
Para o futuro, melhorias para o consumidor, parcerias e novas lojas estão no radar. Hoje, a Americanas é uma empresa menor, mas esse movimento fez parte da reestruturação que a sustentou de pé até agora.
Em 2029, a Americanas completa seus 100 anos e a empresa caminha para chegar lá com o fantasma da fraude contábil deixado para trás.
Venda de ativos
A varejista vendeu sua rede de franquias e caminha para o desinvestimento da Hortifruti Natural da Terra (HNT). Apesar disso, o CFO da companhia Sebastien Durchon, destacou ao Money Times que não há pressa em se desfazer do ativo. O processo ocorrerá quando as condições forem as favoráveis para a empresa.
“A situação de HNT evoluiu muito. Estamos fazendo um processo de market sounding desde agosto do ano passado. A empresa está à venda, temos várias conversas em andamento, mas nada conclusivo. Para nós, a preocupação é alcançar um acordo que faça sentido para a empresa, não estamos com pressa, então não vamos vender a qualquer custo”, enfatizou Durchon.
A Americanas divulgou na última semana o resultado do processo competitivo para alienação judicial da UPI Uni.Co.
Além da proposta vinculante da Fan Store Entretenimento S.A. (“BandUP!”), apresentada na condição de “stalking horse”, foi submetida uma proposta concorrente da Solver Soluções Críticas Ltda., com preço base de R$ 155 milhões — acima dos R$ 152,9 milhões ofertados pela BandUP! — incluindo R$ 70 milhões à vista e o restante em cinco parcelas.
No entanto, o Juízo da Recuperação Judicial considerou a proposta da Solver inválida por não atender aos requisitos do edital. Com isso, a proposta da BandUP! foi declarada vencedora do processo competitivo.
O 4T25 da Americanas
A Americanas reportou prejuízo líquido de R$ 44 milhões no quarto trimestre de 2025, reduzindo o resultado negativo de R$ 586 milhões registrado no final de 2024.
O resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado ficou em R$ 276 milhões, avanço de 1,9% sobre o quarto trimestre do ano anterior. Já a receita líquida de outubro ao final de dezembro caiu 3,8% no período, para R$ 3,69 bilhões, segundo o balanço.
As vendas brutas no conceito mesmas lojas apresentaram crescimento de 7,8% no quarto trimestre. A empresa encerrou 2025 com 1.470 lojas, sendo 906 convencionais e 564 “express”, ante 1.587 em 2024.
Atualmente, a varejista afirma que possui 44 milhões de clientes ativos, com uma média de 90 milhões de visitas mensais nas lojas físicas, site e aplicativo.
Desde a entrada em recuperação judicial, a Americanas perdeu o acompanhamento de praticamente todos os bancos e corretoras que a acompanhavam. De acordo com o CEO, está nos próximos passos retomar essa proximidade, conforme a empresa mostra o resultado da execução que vem realizando.
Lojas físicas e parcerias
Este ano, a Americanas fez três inaugurações de lojas no Nordeste: Aquiraz (CE), Aracaju (SE) e Camaçari (BA). Segundo o CEO, duas delas ocorreram por convites de shoppings centers para a entrada da Americanas — famosa pela compra de guloseimas antes de uma sessão no cinema.
“Não é um plano de expansão, mas a gente tem ficado atento a oportunidades. Temos mais inaugurações previstas para o ano”, pontuou Soares, sem mais detalhes sobre quando ou localidades.
De acordo com o executivo, a companhia vem tomando decisões de acordo com o que está sendo construído em termos de novas lojas e proposta de valor. Retomar essa agenda está no radar, mas ainda com cautela.
Em novembro de 2025, a Americanas e o Magazine Luiza (MGLU3) anunciaram uma parceria para suas operações de e-commerce. As empresas se tornaram lojistas virtuais na plataforma uma da outra.
De acordo com o CEO, a avaliação para parcerias passa por fazer sentido dentro da nossa proposta de valor e que tenham sinergia com as categorias da Americanas.
“Acho que vão ter muitos outros. Temos Panini no Rio de Janeiro como uma parceira, fica perto da nossa categoria de brinquedo, conversa com uma jornada de compra. Acho que essa é a principal driver. E mais uma vez, estamos testando, alguns são piloto, outros já tem plano de expansão, porque a gente entende que tem muita oportunidade para frente”, disse Soares.