Fleury (FLRY3) chega aos 100 anos: CEO comenta apetite por M&As e perspectivas
De laboratório fundado em 1926, o Grupo Fleury (FLRY3) se tornou um ecossistema de saúde com 23 mil colaboradores, 5 mil médicos, presença em 14 estados e mais de 580 unidades de atendimento. No ano em que a empresa chega ao centenário, a CEO, Jeane Tsutsui, fala que vê este marco não como um ponto de chegada, mas de expansão estrutural.
“Estamos completando 100 anos com essa visão de preparar o Fleury para os próximos 100 anos. A ambição é nos fortalecermos como um dos líderes de saúde do Brasil, oferecendo uma saúde mais integrada, mais sustentável e que amplie o acesso”, afirmou a executiva, em entrevista ao programa Money Minds (assista à íntegra acima).
Esse apetite por crescimento, segundo a executiva, está ancorado em disciplina — especialmente em um setor que ainda atravessa um ciclo de consolidação e em meio aos juros altos no país.
Aquisições e Rede D’Or
O grupo cresceu consideravelmente nos últimos anos. Após a combinação com o Grupo Hermes Pardini, em 2023, ganhou escala nacional também no apoio laboratorial, atendendo mais de 8 mil laboratórios em 2.200 cidades.
No ano passado, o noticiário foi de que o Fleury estava para fazer outra movimentação grande: dessa vez com a Rede D’Or, de hospitais. Sobre este ponto, Jeane disse que a companhia avalia oportunidades, mas reforçou que o foco permanece na estratégia atual.
“A gente avalia oportunidades. De maneira geral estamos focados no nosso crescimento orgânico e inorgânico. Nossa trajetória é muito voltada para serviços ambulatoriais. São segmentos diferentes”, disse.
Na frente de compras, o caminho segue sendo aquisições seletivas. A CEO afirma que o grupo adota três filtros para M&As: aderência estratégica, alinhamento cultural e rigor financeiro.
“Nós integramos para capturar valor. Não é apenas comprar ativo. É olhar estratégia, cultura e parâmetros econômico-financeiros com muito rigor. Se não houver integração bem executada, você não captura sinergia”, disse.
Nos últimos meses, o Fleury concluiu ou anunciou aquisições como Confiance (Campinas), Hemolab (Minas Gerais), Laboratório São Lucas (Rio Claro) e Femme (São Paulo), ainda sob análise do Cade.
Juros altos e disciplina de capital
O cenário macroeconômico adiciona complexidade à estratégia. Em um ambiente de juros elevados, Jeane aponta o custo de capital como um dos principais desafios para empresas intensivas em tecnologia e equipamentos.
Hoje, o Fleury destina entre 6% e 6,4% da receita a investimentos estruturais, incluindo renovação de parque tecnológico, expansão de unidades e digitalização. Ainda assim, a executiva sustenta que a companhia mantém estrutura de capital equilibrada e geração de caixa consistente.
“A gente vem executando M&As mesmo em um cenário de juros mais altos porque mantém uma estrutura de capital adequada e disciplina na geração de caixa”, comentou.
Prevenção e longevidade como eixo estrutural
Se o crescimento passa por escala e consolidação, o direcionador estratégico de longo prazo é prevenção e longevidade. O core diagnóstico ainda representa 91% da receita, mas novos serviços — como telemedicina e atendimento ambulatorial integrado — já somam 9%. Desde a pandemia, a companhia ampliou o atendimento remoto e realiza cerca de 3.000 teleconsultas por dia.
“Nosso objetivo é fazer diagnóstico precoce e acompanhar doenças crônicas para manter as pessoas saudáveis por mais tempo. Manter a população na prevenção é fundamental para a sustentabilidade do sistema”, explicou.
Nesse contexto, outro assunto aparece no radar ao se falar do setor de saúde: medicamentos como os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1), usados no tratamento da obesidade, são vistos como parte de uma transformação estrutural no enfrentamento de doenças crônicas.
“São medicamentos importantes, com estudos mostrando redução de risco cardiovascular quando usados de forma adequada. Eles fazem parte dessa discussão maior sobre longevidade saudável”, afirma Jeane.
Setor em 2026: consolidação, IA e eficiência
Na visão da CEO, 2026 marca um ano de reconfiguração profunda para o setor: pressão de custos, operadoras mais seletivas, competição mais intensa e avanço acelerado da Inteligência artificial (IA).
No que tange à IA., segundo a executiva, ela já é parte relevante da operação do Fleury, com aplicações que vão da logística ao apoio diagnóstico. “Inteligência artificial não substitui o médico. Ela aumenta produtividade, ajuda na priorização e libera o profissional para os casos mais complexos.”
Segundo Jeane, a companhia já opera dezenas de casos de uso de IA e enxerga a tecnologia como ferramenta de eficiência — mas não como fim em si mesma. “Tecnologia faz parte da nossa história, mas precisa ser incorporada com critério. Não é tecnologia pela tecnologia, é benefício real.”