Fome: uma catástrofe global anunciada (e, pior, sem melhora à vista)

Bruno Blecher
24/05/2022 - 19:19
Fome, economia, política, pobreza
Fome assombra 20% da população mundial e perspectivas são pessimistas (Imagem: Pexels/ Timur Weber)

Nas ruas de São Paulo, a fome está por todos os cantos – nas portas dos supermercados, ao redor dos bares e restaurantes e até nas lixeiras dos bairros nobres. Mais de 30 mil pessoas vivem hoje nas ruas da cidade, segundo um levantamento da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Os efeitos de dois anos de pandemia, da escalada do desemprego e da queda da renda das famílias levam mais da metade (55%) da população brasileira a algum tipo de insegurança alimentar. Os dados, de uma pesquisa da Penssan, revelam ainda que 20 milhões de brasileiros dizem passar 24 horas ou mais sem ter o que comer.

A inflação dos alimentos no Brasil já bateu a marca de 20% no acumulado de 12 meses (até abril).

A crise alimentar é um fenômeno mundial, mostra a matéria de capa da última edição (19.05) da revista britânica “The Economist”. E pior – veio para durar.

A Covid-19, as mudanças climáticas e a crise energética provocada pela guerra Rússia-Ucrânia atingiram um mundo com um sistema alimentar frágil e agravaram a fome global.

Fome assombra 20% da população mundial

“The Coming Food Catastrophe”, a reportagem especial da Economist, alerta para a crise humanitária decorrente da escassez mundial de alimentos.

Os números assustam.

A ONU revela que a escalada dos preços dos alimentos básicos já aumentou em 440 milhões o número de pessoas que não podem ter certeza de ter o suficiente para comer, para 1,6 bilhão, o equivalente a 20% da população mundial.

Bruno Blecher
“Para a próxima safra brasileira de grãos, a ameaça é a alta do preço dos fertilizantes”, observa Blecher (Imagem: Masao Goto Filho/Divulgação/Fato Relevante)

Quase 250 milhões estão à beira da fome. E se a guerra se arrastar e os suprimentos da Rússia e da Ucrânia forem limitados, centenas de milhões de pessoas poderão cair na pobreza.

A Rússia e a Ucrânia fornecem 28% do trigo, 29% da cevada, 15% do milho e 75% do óleo de girassol.

A Ucrânia já havia embarcado grande parte da safra do verão passado antes da guerra. A Rússia ainda está conseguindo vender seus grãos, apesar dos custos e riscos adicionais para os importadores.

Os silos ucranianos que não foram destruídos na guerra estão cheios de milho e cevada. Os agricultores não têm onde armazenar a próxima colheita, que deve começar no final de junho.

Para a próxima safra brasileira de grãos, a ameaça é a alta do preço dos fertilizantes. Cerca de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras são importados e boa parte provém da zona do conflito (Rússia, Ucrânia e Belarus).

Uma pesquisa realizada pela Fundação MT em parceria com a Agrinvest com 100 produtores de soja do Estado de Mato Grosso mostra que 72% pretendem aumentar a área plantada em setembro e 64% têm intenção de reduzir o uso de adubo em até 20%. Resta saber se isso vai afetar ou não a produtividade das lavouras.

*Bruno Blecher é sócio-diretor da Agência Fato Relevante e jornalista especializado em agronegócio e meio ambiente há 34 anos. Atuou como repórter, editor e diretor de veículos e canais como Globo Rural, Canal Rural, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.

Última atualização por Márcio Juliboni - 24/05/2022 - 19:19

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