Ganhar dinheiro no comércio internacional não impede conflitos, afirma cientista político
Países deixam de entrar em conflitos porque ganham dinheiro com o comércio entre si? “Não” foi a resposta dada por Heni Ozi Cukier, cientista político e ex-deputado estadual de São Paulo, durante o BTG Summit, evento organizado pelo BTG Pactual.
“Não tem como falar do mercado financeiro, de finanças, de economia, sem considerar a geopolítica”, explicou.
Afinal, segundo ele, quando uma decisão é tomada considerando apenas a relação entre custo e benefício, ela não é estritamente racional, pois está subjugada à Política – as prioridades, preferências e valores de quem realiza esta ação. E quando o assunto é política internacional, as relações de poder entram em jogo.
Também conhecido como Professor HOC, ele lembrou, durante a palestra, da pandemia de covid-19. Na época, as vacinas se tornaram questão de saúde pública mundial e até mesmo segurança nacional. Entretanto, os insumos para a produção estavam concentrados na China.
Depois disso, a Rússia atacou a Ucrânia, e outros países perceberam que também poderiam ser invadidos. “Então, nós assistimos a uma mudança na leitura sobre para onde o mundo caminha e o risco geopolítico entrou nas equações dos governos”.
O evento geopolítico mais importante de 2025
Na visão de Cukier, o tarifaço de Donald Trump foi o evento mais importante da política internacional no ano passado. “E ele ainda não acabou” – prova disso é que, na última semana, a Suprema Corte do país derrubou parte das tarifas e o governo já buscou outros caminhos legais para contornar a decisão.
“O governo Trump dois não funciona sem tarifas, elas não vão embora”, conclui. Então, HOC propôs uma reflexão sobre esse evento aos participantes do BTG Summit, e a dividiu em quatro partes.
Na primeira, ele descreveu que os norte-americanos fizeram um diagnóstico da situação. Eles entenderam que a China causa um desequilíbrio comercial no mundo, devido a suas medidas protecionistas para a indústria.
Como um dos efeitos disso, ele afirmou que “a China exporta desemprego no setor para os Estados Unidos”. Não à toa, o índice geral de ocupação norte-americano é bom atualmente, mas na indústria, não. Para o palestrante, essa análise foi correta.
Na segunda etapa, Cuckier afirmou que a administração Trump procurou calcular se a questão era grande o suficiente para ser tratada logo. Em sua visão, houve mais um acerto do governo, que entendeu se tratar de um assunto de alta relevância.
Sem que a indústria seja forte, os EUA lidam não só com desemprego na área, mas dificuldade de escalar suas produções e, principalmente, encara um desenvolvimento bélico menor do que o desejado. “Ou seja, um problema geopolítico que não é só econômico”.
Então, para a terceira parte, o Professor HOC lembrou do dia 2 de abril de 2025, o Liberation Day, quando o líder norte-americano anunciou o tarifaço: “Trump errou gigantescamente, aquele foi um posicionamento de república das bananas”.
Como resultado, houve uma diminuição na procura por títulos da dívida dos Estados Unidos como investimento seguro, algo que vinha feito pelo mundo todo durante décadas.
Heni Ozi Cukier explicou que, dessa forma, a guerra tarifária pode se tornar um conflito financeiro. Afinal, a China – principal oponente de Donald Trump – é a terceira maior detentora de dívida norte-americana, e tem estocado ouro em quantidades muito expressivas. Ela pode se desfazer de suas treasuries para enfraquecer a economia rival. Também há outros caminhos, como bloqueios marítimos sobre o comércio – um passo que remete à possibilidade de uma guerra de fato.
Na quarta e última parte, o cientista político apontou outro erro dos EUA: “eles tratam todo mundo como a China e colocam aliados no mesmo barco, com punições para Reino Unido, Canadá e Austrália”. Outro exemplo citado foi a relação com o continente europeu, diante do abandono da OTAN e da disputa pela Groenlândia.
Cenário atual é de oportunidade para o Brasil
Por fim, o cientista político falou sobre características do cenário atual que colocam o Brasil em uma posição privilegiada. A principal delas está no fato de a América do Sul ser a região mais afastada geograficamente do mundo. Com isso, as disputas geopolíticas costumam acontecer longe daqui.
Além disso, ele também enxerga nosso país como o único entre os sete maiores do mundo que reúne um grande território, população expressiva em tamanho e grandes fontes de energia.
“A gente precisa de condução política e diplomática. Se isso acontecer, as oportunidades para o Brasil serão gigantescas em várias áreas. Talvez a gente não tenha uma janela de oportunidade como essa duas vezes em um século”, completa.
Em sua visão, o país não pode provocar os Estados Unidos, como no ano passado, quando foi vocal sobre o fim da hegemonia do dólar no comércio internacional. Para Cukier, este é o momento para ser o mais neutro possível. Ele também acredita que “um candidato de direita moderno” nas próximas eleições seria importante para levar esse tipo de estratégia adiante, caso vencesse, mas não acha que o cenário se desenhe para que uma figura assim surja agora.