Gestores veem favoritismo de Flávio Bolsonaro; ‘está com cara que Lula perde’
As eleições estão cada vez mais perto, enquanto gestores calibram suas apostas e veem momento menos favorável para o presidente Lula, que buscará sua reeleição. As pesquisas indicam, até agora, uma disputa acirrada com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro.
Em evento realizado pela Fami Capital, Guilherme Abbud, CEO da Persevera, afirmou o que acontece agora é algo muito raro: um desgaste muito grande de uma liderança que prevaleceu no Brasil por muitos anos.
“Obviamente, ninguém sabe quem será o próximo presidente, nem qual será a agenda do próximo governo. Mas vou arriscar aqui uma colocação talvez um pouco polêmica — e vocês poderão me cobrar lá na frente. Tudo indica que, independentemente de quem vença, quem tende a perder a eleição é o Lula”, disse.
Para ele, isso ocorre porque há uma percepção crescente de mudança entre os brasileiros. Alguns não gostam da atuação da primeira dama, Rosângela Lula da Silva. Outros voltaram a associar Luiz Inácio Lula da Silva a casos de corrupção. Há também quem queira uma agenda econômica diferente.
“Além disso, há um eleitorado que se identifica mais com pautas conservadoras, muitas vezes ligado ao público evangélico ou a posições mais à direita. Ou seja, são motivações diferentes, mas que convergem para um mesmo ponto: o desejo de mudança”.
Problema com evangélicos
Na visão de Alexandre Cruz, CEO da Jive Mauá, não dá para eleger alguém no Brasil ignorando o eleitorado evangélico, porque eles participam muito do processo eleitoral. Cerca de 85% deles votam, o que faz desse grupo um segmento extremamente relevante.
Outro ponto importante é que, há cerca de 20 anos, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Luiz Inácio Lula da Silva tentam se aproximar desse público, mas têm dificuldade em estabelecer uma conexão consistente.
“Já houve diversas tentativas: aproximação institucional, participação de evangélicos em cargos no governo e diferentes iniciativas de diálogo. Ainda assim, essa relação nunca se consolidou de forma duradoura. Isso acontece porque há uma questão cultural envolvida”.
Para ele, aquele Lula que a gente viu no passado, com uma capacidade muito forte de dialogar com diferentes grupos, parece não estar mais tão presente.
“Eu acho que ainda existe chance de reação, claro. O governo pode tentar se reposicionar. Você viu, por exemplo, mudanças recentes em programas como o Minha Casa Minha Vida”.
Mas Cruz diz que medidas pontuais — como ampliar benefícios ou criar incentivos financeiros, por exemplo valores próximos de R$ 5 mil sem tributação em determinados programas — podem não ser suficientes para reverter uma tendência eleitoral mais ampla.
Todas as eleições mais a direita
Maciel lembra que o ambiente político desde 2014, especialmente considerando o crescimento do eleitorado evangélico, praticamente todas as eleições caminharam mais para a direita.
“Com exceção de uma — a última eleição presidencial —, todas as outras eleições foram vencidas majoritariamente por candidatos de centro-direita. Isso vale para Câmara dos Deputados, Senado e governos estaduais”
Em sua visão, é importante lembrar disso, porque no Brasil tem eleição a cada dois anos. Ou seja, são vários ciclos eleitorais mostrando a mesma tendência desde 2014.
“Acho que tudo o que está se desenhando hoje acaba tornando o Flávio Bolsonaro favorito. Isso já vinha acontecendo, mas nas últimas duas semanas, inclusive, houve uma mudança de postura dele. O discurso que ele tem feito e as pautas que vem abordando são muito inteligentes”, destaca Maciel.
Ele cita a proposta de acabar com a reeleição, que elimina um problema importante.
“Porque, por exemplo, o Tarcísio de Freitas provavelmente ganharia a reeleição em São Paulo agora — e depois faria o quê? Quando você fala em apenas um mandato de quatro anos, começa a se criar uma ponte de continuidade política”.
Ao mesmo tempo, diz Maciel, na esquerda, hoje, existe uma estrutura muito centralizada em torno do Luiz Inácio Lula da Silva. Passado o Lula, essa estrutura perde a principal referência e acaba ficando sem um nome com a mesma capacidade de catalisar apoio.
“Nesse cenário, você poderia realmente ter um ciclo político mais longo, de até 16 anos“.