Girolando MS demonstra preocupação com acordo Mercosul-União Europeia e teme desigualdades para pecuária leiteira
O Núcleo dos Criadores de Girolando de Mato Grosso do Sul (Girolando MS) vê com preocupação o acordo entre Mercosul e União Europeia e seus possíveis efeitos sobre a pecuária leiteira.
Segundo o presidente da entidade, Alessandro Oliva Coelho, o aumento da concorrência com produtos europeus fortemente subsidiados — que podem ingressar no mercado brasileiro a preços mais competitivos — tende a pressionar margens e afetar a renda do produtor. Esse cenário, afirma, pode ampliar desigualdades em uma atividade já marcada por elevados custos de produção e forte dependência de políticas públicas.
“Enquanto algumas cadeias enxergam potencial de ampliação de mercados, a pecuária leiteira surge como a mais apreensiva. Essa preocupação precisa ser tratada com seriedade, diálogo e medidas de proteção adequadas”, disse Coelho, em nota.
A Girolando MS também manifesta preocupação com as exigências ambientais previstas no acordo, especialmente no que diz respeito à rastreabilidade. De acordo com o núcleo, essas exigências não se limitariam apenas aos produtores que pretendem exportar para a União Europeia, tornando-se obrigatórias para toda a cadeia produtiva. Isso criaria, na avaliação da entidade, um ambiente de crescente burocracia, aumento de custos e riscos de exclusão produtiva.
Para a associação, a rastreabilidade, da forma como vem sendo desenhada, pode gerar um impacto significativo sobre a pecuária extensiva, realidade predominante em Mato Grosso do Sul e, de forma ainda mais sensível, no Pantanal.
“Trata-se de uma pecuária complexa, baseada em grandes áreas, manejo tradicional e desafios logísticos e ambientais próprios de um bioma único. Imposições padronizadas, pensadas a partir de realidades completamente distintas, acabam desconsiderando essas especificidades e podem, na prática, retirar produtores do mercado, mesmo aqueles que produzem de forma sustentável e legal”, afirmou.
A entidade considera o tema um ponto de alerta e reforça que exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade precisam ser construídas com critérios técnicos, prazos viáveis e políticas de transição adequadas.
Segundo o núcleo, essas exigências deveriam ficar restritas aos produtores que optarem por participar do processo, sendo essa a única forma de gerar benefícios efetivos para a ponta final da cadeia — o produtor. Caso contrário, o acordo pode se transformar em um instrumento de exclusão produtiva, penalizando sistemas extensivos sustentáveis e comprometendo a competitividade da pecuária brasileira.
Coelho destaca que Mato Grosso do Sul tem avançado em sanidade animal, bem-estar, boas práticas produtivas e programas de sustentabilidade, o que pode abrir oportunidades para produtores capazes de se adaptar às exigências de mercados premium. No entanto, isso só será possível com apoio institucional, assistência técnica, segurança jurídica e investimentos em tecnologia acessíveis também aos pequenos e médios produtores.
“Em síntese, o Acordo UE–Mercosul, agora formalmente assinado, representa uma oportunidade seletiva, mas também um grande desafio. Cabe às lideranças do agro, às entidades representativas e ao poder público garantir que esse novo cenário não resulte em exclusão, mas em desenvolvimento, competitividade e valorização da produção brasileira, respeitando a realidade do campo e a soberania produtiva do país”