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Goldman Sachs vê risco de fortes altas para commodities agrícolas diante de 3 ameaças globais

08 set 2026, 14:53
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(Imagem: REUTERS/Nacho Doce)

O Goldman Sachs avalia que aumentou o risco de fortes altas nos preços das commodities agrícolas diante da combinação de três ameaças globais: as interrupções no Estreito de Hormuz, as novas tensões entre Rússia e Ucrânia no Mar Negro e a possibilidade de formação de um super El Niño.

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Em relatório, o banco afirma que os mercados agrícolas entraram em 2026 com estoques relativamente confortáveis. No entanto, os riscos de valorização tornaram-se mais relevantes à medida que os choques geopolíticos e climáticos ganharam força em um ambiente comercial cada vez mais protecionista.

O índice à vista de commodities agrícolas da Bloomberg, o BCOM Agriculture Spot Index, já acumula alta de 24% em relação ao ano anterior, puxado pelo avanço de 41% dos preços do trigo.

“Mesmo pequenas interrupções na oferta podem agora gerar movimentos de preços maiores do que no passado, à medida que as barreiras comerciais sobem mais rapidamente em resposta aos riscos de abastecimento”, afirmam os analistas Lina Thomas e Daan Struyven.

Hormuz ameaça fertilizantes, diesel e margens do produtor

A primeira ameaça destacada pelo Goldman Sachs está no Estreito de Hormuz, por onde passa aproximadamente um terço do comércio mundial de fertilizantes e cerca de 10% das exportações globais de diesel.

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Segundo o banco, as interrupções registradas desde a nova escalada do conflito no Oriente Médio, em julho, podem elevar os custos de produção agrícola. Isso ocorre porque os fertilizantes e o diesel são essenciais, respectivamente, para a produtividade das lavouras e para a operação de máquinas, colheitadeiras e veículos de transporte.

O risco é mais imediato para os fertilizantes nitrogenados, utilizados em culturas como milho, trigo e arroz. Esses insumos precisam ser aplicados a cada safra, e a interrupção coincide com a janela de compras de importantes mercados, incluindo o milho brasileiro, o arroz e a cana-de-açúcar da Índia e o trigo de inverno da União Europeia.

No caso dos fertilizantes fosfatados, o Goldman Sachs chama atenção para a soja brasileira. O Brasil responde por 62% das exportações globais da oleaginosa e importa cerca de 80% do fosfato utilizado no campo.

Embora os produtores possam recorrer às reservas de fósforo presentes no solo no curto prazo, a aplicação abaixo do nível recomendado por um período prolongado pode reduzir a qualidade do solo, a resiliência das lavouras e a produtividade.

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A escalada no Oriente Médio ocorreu justamente durante a principal janela de compra de fertilizantes para a soja brasileira, entre junho e julho, mantendo os preços dos fosfatados elevados antes do plantio iniciado em setembro.

Além disso, as preocupações com a segurança energética podem levar grandes exportadores a destinar uma parcela maior de suas safras à produção doméstica de biocombustíveis. Brasil e Índia elevaram recentemente seus mandatos de etanol, enquanto a Indonésia ampliou a mistura obrigatória de biodiesel, reduzindo o excedente disponível para exportação.

Mar Negro coloca até 20% do comércio de grãos em risco

A segunda ameaça está no Mar Negro, considerado pelo banco o corredor de grãos mais importante do mundo. A retomada das tensões entre Rússia e Ucrânia coloca em risco entre 15% e 20% do comércio global de grãos.

As interrupções ocorrem durante o pico da temporada de exportação de trigo da região. Os embarques marítimos russos e ucranianos já estão muito abaixo dos níveis normais, contribuindo para uma alta de aproximadamente 20% nos preços do cereal desde o início da escalada, em julho.

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As exportações de milho dos dois países também recuaram. Embora agosto seja um período sazonalmente mais fraco para os embarques, o Goldman Sachs alerta que os efeitos podem se espalhar do trigo para o mercado global de milho caso as interrupções continuem a partir de outubro, quando as exportações do cereal normalmente ganham força.

Super El Niño ameaça lavouras e logística

A terceira ameaça é a formação de um super El Niño. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, existe uma probabilidade superior a 90% de o fenômeno evoluir para uma intensidade muito forte durante o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte.

Os super El Niños são raros e ocorreram apenas três vezes nos últimos 75 anos. Segundo o relatório, o atual fenômeno pode se tornar o mais intenso já registrado.

O evento climático poderia atingir simultaneamente diferentes regiões produtoras por meio de secas e enchentes severas. O açúcar aparece entre os mercados mais expostos, uma vez que as exportações globais estão concentradas em áreas sensíveis ao El Niño, como o Centro-Sul do Brasil, a Índia e a Tailândia.

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Também existem riscos para a logística. O Canal do Panamá, responsável por 10% do comércio mundial de cereais e 17% do comércio de soja, pode enfrentar redução dos níveis de água.

Caso os reservatórios não sejam suficientemente recompostos antes do período seco, entre janeiro e maio, as autoridades poderão restringir o trânsito de navios para economizar água, como ocorreu em 2023 e 2024.

Protecionismo pode ampliar choque sobre os preços

Para o Goldman Sachs, o maior risco não está apenas nas três ameaças, mas no fato de elas ocorrerem simultaneamente em um mercado agrícola mais fragmentado e voltado à proteção do abastecimento doméstico.

Desde a pandemia e a crise de alimentos e energia de 2022, diferentes países passaram a recorrer com maior frequência a tarifas de importação, controles de exportação, mandatos de biocombustíveis e formação de estoques públicos.

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Na avaliação dos analistas, uma pequena quebra de oferta — ou mesmo o temor de uma interrupção — pode levar grandes exportadores a adotar restrições preventivas. Essas medidas podem retirar do mercado mundial um volume muito superior ao diretamente afetado pelo choque inicial.

Foi o que ocorreu antes do El Niño de 2023/2024, quando a proibição indiana às exportações de arroz retirou aproximadamente 40% do comércio global do cereal do mercado internacional e contribuiu para uma forte alta dos preços, apesar de a produção do país ter se mostrado posteriormente resiliente.

“Barreiras comerciais mais elevadas podem reduzir as barreiras aos choques”, resume o banco. Isso porque a fragmentação dos mercados diminui a liquidez disponível e amplia a volatilidade: se um bloco regional tiver metade do tamanho do mercado mundial, calcula o Goldman Sachs, um mesmo choque pode provocar o dobro do impacto sobre os preços.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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