Crédito

Golpe duplo: Tarifa de 50% dos EUA pega o crédito brasileiro fragilizado

01 ago 2025, 8:00 - atualizado em 31 jul 2025, 10:40
Trump tarifas eua morning agenda ibovespa wall street crédito
Medida de Donald Trump atinge exportações brasileiras em meio à piora do crédito e pode afetar cadeias produtivas e empregos no país. (Imagem REUTERS/Dado Ruvic/Imagem ilustrativa)

A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras a partir de 1º de agosto de 2025 chega em um dos momentos mais delicados para o mercado de crédito nacional dos últimos anos. Com o aumento da inadimplência, a alta dos juros reais e a redução do apetite dos bancos por risco, a medida deve agravar o ambiente de restrição de crédito — afetando principalmente o setor exportador.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Dados do primeiro semestre de 2025 mostram uma clara deterioração nas condições de crédito. A inadimplência no crédito livre para empresas atingiu 4,2%, o maior patamar desde 2021, segundo o Banco Central. O spread bancário médio no crédito PJ subiu de 10,1 pontos percentuais em dezembro de 2024 para 11,3 pontos em maio de 2025. A concessão de crédito com recursos livres recuou 3,7% no acumulado do semestre, enquanto a taxa de juros real segue acima de 6%, o que limita a expansão do crédito privado e eleva o custo de capital.

Nesse contexto, a imposição de tarifas representa um novo choque negativo. O impacto deve ser mais visível nos setores com forte exposição ao mercado norte-americano. Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, com 11,2% do total em 2024. Setores como café, suco de laranja, carne bovina, aço e aviação serão diretamente atingidos.

O caso do café e do suco de laranja é particularmente preocupante. Os EUA são os principais compradores desses produtos. Em 2024, 22% das exportações brasileiras de café e 70% do suco de laranja tiveram como destino o mercado americano. Com a tarifa, o Brasil perde competitividade frente a países como Vietnã, México e Índia, o que pode gerar queda de receitas, retração da produção, demissões e aumento da inadimplência, especialmente nas regiões produtoras.

Do ponto de vista do sistema financeiro, a reação tende a ser imediata: reavaliação de limites de crédito, exigência de garantias mais robustas, encarecimento do capital e retração do crédito rural e industrial. A volatilidade cambial também deve se acentuar, pressionando contratos de dívida em dólar e elevando custos de hedge.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Esse efeito em cadeia tende a ser mais severo no crédito direcionado a pequenas e médias empresas, produtores rurais e cooperativas — justamente os canais que abastecem cadeias produtivas com forte presença de trabalhadores e empreendedores das classes CDE.

A tendência de reavaliação de limites virá de uma postura mais conservadora e seletiva das instituições financeiras. Empresas com maior exposição ao mercado externo ou situadas em regiões com forte vocação exportadora (como Sul, Sudeste e Centro-Oeste) devem ter seu risco reclassificado, o que leva à exigência de garantias adicionais — algo que pequenos produtores e empresas familiares das classes CDE, muitas vezes, não conseguem oferecer.

Além disso, o encarecimento do capital deve restringir o acesso a linhas de crédito rural, industrial e de capital de giro. Com maior percepção de risco, os spreads aumentam, e os bancos passam a exigir histórico de crédito mais sólido, excluindo justamente os negócios mais frágeis, muitas vezes informais ou de baixa escala, típicos da base da pirâmide.

A retração do crédito rural e industrial também impacta o emprego informal e as economias locais. Muitas atividades ligadas ao agronegócio exportador — como transporte, logística, pequenos comércios e serviços em cidades do interior — dependem do crédito ao produtor. Quando esse crédito encolhe, a renda, o consumo e o emprego nessas regiões sofrem rapidamente, com efeito direto sobre as classes CDE.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Outro ponto relevante é que, com o dólar mais instável, empresas com contratos de dívida em moeda estrangeira enfrentam maior custo financeiro. Muitas acabam repassando esse custo à cadeia produtiva, o que pode resultar em inflação localizada, cortes de jornada ou demissões. Setores como alimentos, vestuário e logística — com forte impacto no consumo popular — são particularmente sensíveis.

Por fim, o aumento do custo de proteção cambial (hedge), ao qual muitos negócios menores sequer têm acesso, torna essas empresas mais vulneráveis a choques externos e reduz sua capacidade de planejamento e investimento.

Diante desse cenário, o Brasil precisa adotar uma postura pragmática. Escalar a retórica apenas amplia a incerteza. A prioridade deve ser mapear os setores mais atingidos, estimar os impactos em receita e emprego e implementar medidas de suporte. Entre elas estão o uso do BNDES para criar linhas emergenciais de crédito a exportadores, a articulação com bancos comerciais e cooperativas e o fomento ao uso de garantias, seguros e capital de giro assistido.

Mais do que reagir, é preciso abrir novos mercados, reduzir a dependência de poucos destinos comerciais e construir uma agenda coordenada entre governo, setor financeiro e indústria. A tarifa de Trump representa um choque externo relevante que pode se tornar catalisador de transformação — ou acelerador de perdas e desemprego, caso falte coordenação. O caminho é agir com foco, estratégia e velocidade.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

CEO da Omni
CEO da Omni. Graduado em Engenharia Civil com MBA em Corporate Finance no Insead, França. Possui experiência relevante de mais de 15 anos em diferentes indústrias e segmentos, tendo atuado por quatro anos como Diretor Executivo da Wiz Corporate e um ano como Diretor de Transformação Digital da Wiz. Foi também consultor da Mckinsey & Company de 2008 a 2013, participando ativamente de projetos estratégicos no mercado bancário e de seguros da América Latina. Heverton Peixoto iniciou sua carreira na Rede Esho/Grupo Amil, com relevante experiência na indústria de seguros e saúde suplementar.
heverton.peixoto@moneytimes.com.br
CEO da Omni. Graduado em Engenharia Civil com MBA em Corporate Finance no Insead, França. Possui experiência relevante de mais de 15 anos em diferentes indústrias e segmentos, tendo atuado por quatro anos como Diretor Executivo da Wiz Corporate e um ano como Diretor de Transformação Digital da Wiz. Foi também consultor da Mckinsey & Company de 2008 a 2013, participando ativamente de projetos estratégicos no mercado bancário e de seguros da América Latina. Heverton Peixoto iniciou sua carreira na Rede Esho/Grupo Amil, com relevante experiência na indústria de seguros e saúde suplementar.