Ibovespa pode buscar os 220 mil pontos, ou até mais, diz analista
Com os investidores domésticos ainda um tanto ressabiados, e contidos por uma taxa de juros real ainda muito atrativa, o fluxo de compras para a Bolsa segue sustentado pelo ingresso estrangeiro líquido, fundamental, como no fim do ano passado, para a sucessão de recordes empreendida pelo Ibovespa entre meados de janeiro e o fim de fevereiro, e retomada agora, em abril.
Bruno Takeo, estrategista da Potenza, avalia que o investidor internacional tem mantido avaliação positiva sobre o Brasil, o que, na sua visão, abre espaço para novas altas do Ibovespa. “O estrangeiro vê o Brasil com bons olhos, mesmo com a eleição”, diz.
Para Takeo, o mercado externo tende a olhar mais para a direção da política econômica do que para o nome do vencedor em 2026. “Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva for reeleito, é mais do mesmo. Se mudar, pode melhorar.”.
A proximidade do Ibovespa dos 200 mil pontos abre espaço para o principal indicador da B3 buscar a região de 220 mil a 225 mil pontos, potencialmente com a eleição – ou até acima disso – se os vetores atuais permanecerem, na avaliação de Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora.
Segundo ele, o Ibovespa vive um bull market sólido, iniciado por volta de maio de 2025, sem sinais claros de reversão – embora em meio, crescentemente, a um ambiente de forte volatilidade. Mollo aponta combinação de alguns gatilhos que ainda sustentam a tendência de alta do índice e que ajudam a explicar por que o Brasil tem atraído fluxo estrangeiro mesmo em cenário global tornado mais incerto pela tensão geopolítica.
Segundo o analista da Daycoval, o principal vetor é o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Com a taxa doméstica ainda elevada, investidores internacionais têm direcionado capital ao País em busca de remuneração: parte fica em renda fixa e outra parcela migra para a Bolsa. “Nesse cenário, o dinheiro tem saído dos EUA para o Brasil”, resume. A dinâmica ganha força à medida que a inflação global volta a pressionar, reduzindo o espaço para cortes de juros nas economias desenvolvidas.
Outro elemento relevante, na leitura do analista, é o peso do petróleo na composição do Ibovespa. Com a alta da commodity, o mercado brasileiro – bastante exposto a empresas do setor, como Petrobras e companhias juniores de exploração e produção – tende a capturar parte desse movimento. Ao mesmo tempo, a magnitude da valorização do petróleo tem contribuído para a desvalorização do dólar futuro no Brasil, o que também influencia o posicionamento de investidores, diz.
No cenário doméstico, Mollo destaca que o País tem se diferenciado de outros emergentes ao combinar crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), desemprego baixo e inflação ainda relativamente próxima da meta. Esse conjunto, somado ao carrego proporcionado pelos juros altos, tem colocado o Brasil como uma espécie de “porto seguro” relativo dentro do universo emergente, especialmente enquanto persistirem as incertezas externas, como a guerra e seus efeitos sobre energia e preços, na visão do analista da Daycoval Corretora.
Selic
Para a política monetária, Mollo espera um corte de 0,25 ponto porcentual, mas chama atenção para a possibilidade de o Banco Central sinalizar pausa para reavaliar os impactos do petróleo sobre a inflação. Se o “gap” de juros entre Brasil e economias desenvolvidas continuar alto por mais tempo, acredita que a tendência é que o fluxo estrangeiro siga favorecendo o mercado brasileiro.
No radar, a eleição aparece como um fator relevante, mas não necessariamente o principal foco de estresse no curto prazo, na visão de Mollo.
Conforme ele, apesar de acirrada e polarizada, a disputa tem se desenrolado com volatilidade menor do que em outros anos, com dois candidatos vistos como mais moderados. Ainda assim, ele ressalta que o tema decisivo para o investidor será o fiscal.
Segundo o analista, qualquer que seja o vencedor, será necessário apresentar uma solução “concreta” para a trajetória da dívida pública.
Ele também chama atenção para uma possível rotação setorial na B3. Em caso de mudança no quadro político ou de percepção sobre estatais, Petrobras (PETR3;PETR4) poderia sofrer uma realização mais forte e parte do dinheiro migraria para setores domésticos que ainda estariam “defasados”, como construção civil, varejo e bancos. Mollo, porém, não vê uma fuga estrutural de investimentos, mas sim realocações internas conforme a mudança do ambiente.
Quanto às ações de bancos, a leitura é de que os juros altos podem pesar, mas compensar por meio da melhora do spread. Já o varejo “ainda não andou muito” e tenderia a reagir de forma mais consistente quando os juros começarem a cair com mais força – movimento que, na visão dele, depende da redução das incertezas globais, com a guerra passando a segundo plano.
Por fim, Mollo observa que mudanças de postura no cenário internacional – como uma alteração de orientação política nos EUA – podem seguir como fonte importante de volatilidade, elevando o prêmio de risco e tornando mais difícil projetar movimentos com precisão. Ainda assim, ele resume o momento com uma diretriz: apesar do ruído, a tendência do Ibovespa continua a ser de alta, e o bull market prossegue sólido e consistente.