Investimentos crescentes em guerra: que impactos isso pode ter no fiscal dos países, nos juros e nos títulos
A escalada das tensões no Oriente Médio e o início de mais um conflito envolvendo os Estados Unidos reacenderam o debate sobre o impacto das guerras e dos gastos militares sobre as contas públicas das grandes economias.
O tema não é novo, mas volta ao centro das discussões em um momento em que diversos países já operam com níveis elevados de dívida pública e déficits persistentes.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a dívida federal calculada para o final do ano fiscal de 2026 é de 101% do PIB, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês), e a nova frente militar adiciona um fator de pressão sobre as contas públicas.
Segundo estimativas do Center for Strategic and International Studies (CSIS), apenas as primeiras 100 horas da operação militar americana contra o Irã, chamada “Operation Epic Fury” (Operação Fúria Épica, em português), custaram cerca de US$ 3,7 bilhões, ou aproximadamente US$ 891 milhões por dia. Grande parte desse valor não estava prevista no Orçamento e deverá exigir financiamento adicional do governo americano.
Para especialistas, conflitos militares historicamente ampliam déficits fiscais ao elevar gastos públicos e exigir maior emissão de dívida.
“O fiscal volta a ganhar protagonismo no cenário global. Quando você soma déficits já elevados com novos gastos militares, a trajetória da dívida passa a preocupar mais o mercado”, afirma Cauê Valim, analista de alocação e inteligência da Avenue, em entrevista ao Money Times.
Gastos militares em alta também na Europa
O aumento das despesas militares não se limita aos Estados Unidos. Na Europa, o ambiente geopolítico mais instável também tem provocado uma corrida por reforço das capacidades de defesa.
A Alemanha lidera esse movimento. O governo alemão deve investir cerca de US$ 127 bilhões no setor militar em 2026, o maior orçamento de defesa da Europa.
O valor supera os investimentos previstos por outras grandes economias do continente, como o Reino Unido, com cerca de US$ 84 bilhões, e a França, com aproximadamente US$ 70 bilhões.
“Se a gente for pegar Europa, por exemplo, os gastos, principalmente da Alemanha e do Reino Unido, estão sendo bem elevados e é um problema bem crônico para eles”, destaca Valim.
Segundo análise do think-tank Atlantic Council, a Alemanha já direciona significativamente mais recursos para defesa do que outros países europeus, refletindo uma mudança estrutural na postura estratégica do país.
O primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, chegou a afirmar que pretende construir “o maior e melhor Exército da Europa”, em resposta à agressão russa e à percepção de menor engajamento dos Estados Unidos na segurança do continente.
A mudança representa uma guinada histórica. Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha manteve por décadas uma postura mais cautelosa em relação a gastos militares, influenciada tanto pelo trauma dos conflitos quanto pela percepção de que o colapso da União Soviética, em 1991, havia inaugurado um período de maior estabilidade global.
“Durante décadas, a Europa abriu mão de investir pesadamente em defesa porque contava com a proteção dos Estados Unidos. Isso permitiu ampliar o Estado de bem-estar social”, avalia Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research. Agora, parece que teremos novos tempos.
Pressão dentro da Otan e efeito nos títulos soberanos
O movimento ganhou ainda mais força dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar que conta atualmente com 32 países-membros na Europa e na América do Norte. Em 2025, sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os países da aliança se comprometeram a elevar significativamente os investimentos em defesa.
A meta discutida prevê que os países passem a destinar até 5% do PIB para gastos militares, mais que o dobro do objetivo anterior, de 2%. Na prática, isso pode representar centenas de bilhões de dólares adicionais em despesas públicas nos próximos anos. Para o especialista da Avenue, esse movimento tende a aumentar o endividamento das economias desenvolvidas.
“O mundo desenvolvido está entrando em um ciclo de gastos estruturais mais elevados, seja com defesa, segurança energética ou política industrial. Isso pressiona a trajetória da dívida e pode exigir prêmios maiores nos títulos soberanos”, afirma Valim.
O aumento dos gastos públicos e o risco de deterioração fiscal refletem diretamente no comportamento dos mercados de dívida soberana. Em especial, nos títulos de longo prazo, considerados referência para o custo de financiamento das economias.
Segundo Spiess, momentos de maior preocupação com a trajetória das contas públicas costumam aparecer primeiro na curva de juros. “Quando o mercado percebe estresse fiscal, o primeiro reflexo aparece nos juros longos”, afirma. Isso ocorre porque investidores passam a exigir remuneração maior para financiar governos cuja trajetória de endividamento se torna mais incerta.
Na prática, o movimento vai além do mercado de títulos públicos. Os juros de longo prazo funcionam como uma das principais referências para a precificação de ativos e projetos na economia.
Para o estrategista, esse mecanismo ajuda a explicar por que episódios de estresse fiscal frequentemente são acompanhados por maior volatilidade em mercados de ações e crédito, à medida que a elevação da taxa de desconto reduz o valor presente dos ativos.
EUA ainda têm uma vantagem
Apesar do avanço da dívida, os Estados Unidos ainda possuem uma vantagem estrutural relevante em relação a outras economias: o papel central do dólar no sistema financeiro global. “Os Estados Unidos têm um viés um pouco diferente em relação a essa questão por diversos fatores, como o dólar ser a moeda base global”, afirma o analista da Avenue.
Segundo ele, a forte presença da moeda americana nas reservas internacionais ajuda a sustentar a demanda global por títulos do governo americano. “Cerca de 60% das reservas globais estão em dólar, então isso acaba sendo um ponto menos preocupante para eles”, diz.
Na prática, esse status permite que os EUA emitam dívida em sua própria moeda e mantenham forte demanda internacional por seus títulos, o que reduz o risco de financiamento da dívida quando comparado a países emergentes.
Dívida elevada e juros mais altos
O desafio fiscal surge em um momento particularmente delicado. Após anos de juros próximos a zero, as principais economias do mundo passaram por um ciclo agressivo de aperto monetário para combater a inflação pós-pandemia. Com taxas de juros mais altas, o custo de carregar grandes volumes de dívida pública se torna significativamente maior.
Nos Estados Unidos, a dívida federal já supera 100% do PIB. Na Europa, vários países também apresentam níveis elevados de endividamento, especialmente após os programas de estímulo implementados durante a pandemia e a crise energética.
Segundo Valim, a combinação entre déficits persistentes, aumento dos gastos militares e juros elevados pode manter o risco fiscal no radar dos mercados por mais tempo.
“O ponto central é que o mundo desenvolvido pode ter entrado em uma fase de déficits estruturalmente mais altos. Isso muda a dinâmica macro e pode influenciar desde o comportamento dos juros até o apetite global por risco”, afirma.
Apesar de economias desenvolvidas possuírem maior capacidade de financiamento e moedas fortes, o espaço para expansão contínua da dívida pública também começa a ser questionado pelos mercados. Spiess avalia que a ideia de que governos poderiam se endividar indefinidamente, sem consequências relevantes para a economia, perdeu força nos últimos anos.
Segundo ele, durante muito tempo houve um certo otimismo em relação à capacidade das grandes economias de sustentar níveis elevados de endividamento, especialmente em um ambiente de juros baixos e crescimento relativamente estável. No entanto, o cenário mudou após a pandemia, com taxas de juros mais altas e aumento expressivo dos déficits públicos.
Nesse contexto, a trajetória das contas públicas passou a ganhar mais atenção de investidores e formuladores de política econômica. “Cedo ou tarde, o mundo terá que enfrentar o problema fiscal, porque a trajetória atual de endividamento não é sustentável”, diz Spiess.
Na avaliação dele, o ajuste pode ocorrer de diferentes formas ao longo do tempo, seja por meio de políticas de austeridade, aumento de receitas ou crescimento econômico mais forte. Caso contrário, a alternativa tende a ser um ambiente de inflação mais persistente ou custos de financiamento mais elevados para governos.