IPCA-15 acima do esperado coloca em xeque velocidade do ciclo de queda da Selic
Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de fevereiro, divulgados nesta sexta-feira (27), acenderam um sinal de alerta no mercado.
A prévia da inflação subiu 0,84% no mês, bem acima das projeções dos analistas, que apontavam para alta de 0,56%. Apesar da surpresa negativa no curto prazo, o resultado ficou abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, quando o índice avançou 1,23%.
Na avaliação de Sérgio Santos, economista do Sistema Ailos, a desaceleração na comparação anual reforça o processo de desinflação em curso na economia brasileira.
“Quando analisamos a inflação de fevereiro, existe uma sazonalidade latente: é um mês em que a inflação costuma vir um pouco mais alta do que nos demais, pois ocorrem reajustes anuais nos preços praticados pelo setor de educação no início do ano letivo”, afirma.
O avanço acima do esperado, por outro lado, mantém o sinal de alerta aceso entre os agentes financeiros, especialmente em um momento em que o mercado tenta calibrar o ritmo de cortes da Selic.
A combinação entre surpresa no dado cheio e uma leitura mais benigna na comparação anual alimenta o debate sobre até que ponto o Banco Central poderá acelerar ou não o ciclo de flexibilização monetária nas próximas reuniões.
Para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o dia 18 de março, a expectativa da maioria do mercado era de um corte de 0,50 ponto percentual. Com uma inflação potencialmente mais alta, porém, surgem dúvidas sobre a magnitude do movimento.
Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, avalia que o dado reforça a necessidade de cautela por parte do Banco Central. Segundo ele, o resultado reduz a probabilidade de um corte mais agressivo, e aumenta a chance de um movimento mais contido, de 0,25 pontos percentuais. Ainda assim, a Genial mantém como cenário mais provável uma redução de 0,50 p.p na próxima reunião do Copom.
No C6 Bank, a leitura também é de que o ciclo deve começar com passos curtos. Para Claudia Moreno, economista da instituição, o IPCA-15 reforça a expectativa de que o Copom inicie os cortes com uma redução gradual de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,75% já na reunião de março. No cenário traçado pelo banco, a taxa básica encerraria o ano em 12,5%.
Já a XP Investimentos, avaliou que as expectativas de inflação recuaram, e a tendência desinflacionária dos preços de bens (industrializados e alimentos) permanece.
“Seguimos projetando que o reduza a taxa Selic em 0,50 p.p. em março. Em relação à nossa projeção para o IPCA de 2026, mantemos 3,8%. Para 2027, projetamos IPCA em 4,0%”, destaca a casa em relatório.
Assim, embora a inflação mostre sinais de desaceleração na comparação anual, a surpresa no dado mensal sugere que o Banco Central deve seguir com uma estratégia prudente, evitando movimentos bruscos no início do ciclo de flexibilização.