IPO da PicPay estreia na Nasdaq e rompe pausa de quatro anos para empresas brasileiras
O banco digital PicPay, controlado pela família Batista, estreia na Nasdaq nesta quinta-feira após levantar US$ 434 milhões em uma oferta pública inicial, sendo a primeira nova listagem de ações por uma empresa brasileira em mais de quatro anos.
Fundado em 2012 e adquirido três anos depois pela J&F Investimentos, holding por trás da gigante do setor de embalagem de carne JBS, o PicPay vendeu 22,86 milhões de ações na quarta-feira a US$ 19 cada, que serão negociadas sob o código PICS.
A oferta, que implica uma diluição de cerca de 21% para os acionistas existentes, avaliou a empresa em cerca de US$ 2,6 bilhões, de acordo com o jornal Valor Econômico.
A empresa também concedeu aos subscritores uma opção de 30 dias para comprar ações adicionais ao preço da oferta pública inicial, aumentando potencialmente o negócio para cerca de US$ 500 milhões.
A listagem foi uma vitória para os irmãos Wesley e Joesley Batista, que mantêm mais de 90% do poder de voto na PicPay. A dupla se recuperou de um escândalo de corrupção no Brasil há uma década, e seu império abrange frigoríficos, energia, mineração, fintech, mídia, cosméticos e muito mais em pelo menos 20 países.
A Bicycle Capital, um fundo de crescimento liderado por ex-executivos da SoftBank, incluindo o bilionário boliviano Marcelo Claure, comprometeu-se a investir US$75 milhões na oferta, de acordo com um comunicado. A oferta pública inicial, que o PicPay havia explorado anteriormente, mas abandonado em 2021, foi liderada pelo Citigroup, Bank of America e Royal Bank of Canada.
Quatro anos de hiato
A oferta rompe uma pausa de quatro anos em IPOs para empresas brasileiras e pode abrir as portas para mais.
Anderson Brito, chefe de banco de investimento do UBS BB no Brasil, disse que uma pesquisa com investidores institucionais previu mais de 10 IPOs brasileiros em 2026, seja no Brasil ou no exterior.
A empresa de tecnologia financeira Agibank, avaliada em R$ 9,3 bilhões no final de 2024, entrou com pedido este mês para ser listada em Nova York.
As fintechs brasileiras, em particular, têm obtido sucesso com listagens nos Estados Unidos devido a comparações favoráveis com seus pares globais. A última empresa brasileira a abrir o capital foi o banco digital Nubank, que estreou na NYSE no final de 2021, levantando US$ 2,6 bilhões com uma avaliação acima de US$ 40 bilhões, tornando-se o maior banco da América Latina em capitalização de mercado.
A última oferta pública inicial (IPO) na bolsa de valores brasileira foi a da produtora de fertilizantes Vittia, em setembro de 2021.
Menos apetite no mercado interno
Nova York pode continuar atraindo a abertura de capital de grupos brasileiros, disse o analista de investimentos Pedro Galdi, da fintech AGF, porque os retornos das ações são insignificantes em comparação com os rendimentos da dívida doméstica.
“Com a taxa básica de juros em 15% ao ano, quem iria querer investir em uma oferta pública inicial no Brasil?”, questionou.
Em contrapartida, o negócio da PicPay ilustra uma demanda sólida nos Estados Unidos.
“Acho que este ano veremos mais IPOs nos Estados Unidos, não apenas de empresas brasileiras, mas também de empresas de tecnologia americanas”, disse Ulrike Hoffmann, diretora global de ações da UBS Global Wealth Management, em uma conferência esta semana no Brasil.
Isso poderia, em última análise, estimular a demanda no Brasil. “Acredito firmemente que o mercado local se recuperará por meio de grandes transações, intimamente ligadas a setores mais defensivos, principalmente em infraestrutura”, disse César Mindof, diretor da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).