Irã nomeia Mojtaba Khamenei, filho linha-dura de Khamenei, como novo líder supremo
O Irã nomeou Mojtaba Khamenei para suceder seu pai, Ali Khamenei, como líder supremo, sinalizando que os linha-dura continuam firmemente no comando em Teerã uma semana após o início do conflito com os Estados Unidos e Israel.
Mojtaba, um clérigo de posição intermediária com influência dentro das forças de segurança iranianas e em vastas redes de negócios sob seu pai, era visto como um dos principais candidatos na preparação para a votação pela assembleia, um órgão composto por 88 clérigos encarregado de escolher o novo líder após Ali Khamenei.
“Por votação decisiva, a Assembleia de Especialistas nomeou o aiatolá Seyyed Mojtaba Hosseini Khamenei como o terceiro Líder do sistema sagrado da República Islâmica do Irã”, disse a assembleia em um comunicado divulgado pouco depois da meia-noite no horário de Teerã.
O cargo dá a Mojtaba a palavra final em todos os assuntos de Estado na República Islâmica.
A nomeação de Mojtaba provavelmente provocará a ira do presidente dos EUA, Donald Trump, que disse no domingo que Washington deveria ter voz na seleção. “Se ele não receber nossa aprovação, não vai durar muito”, afirmou à ABC News. Israel, antes do anúncio, ameaçou atacar quem fosse escolhido.
O pai de Mojtaba, o líder supremo Ali Khamenei, foi morto em um dos primeiros ataques lançados contra o Irã há mais de uma semana.
Militares dos Estados Unidos informaram neste domingo que um sétimo norte-americano morreu em decorrência dos ferimentos sofridos durante o ataque de represália inicial do Irã, ocorrido há uma semana, um dia depois de Trump acompanhar o retorno aos EUA dos restos mortais dos outros seis que morreram.
Enquanto Trump pressionava por uma “rendição incondicional”, Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do parlamento iraniano, disse que Teerã não buscava um cessar-fogo na guerra e puniria os agressores.
Israel disse que continuou a mirar figuras iranianas de alto escalão, incluindo Abolqasem Babaian, o recém‑nomeado chefe do gabinete militar do líder supremo, morto em um ataque no sábado.
Quem é Mojtaba Khamenei?
Mojtaba Khamenei tem 56 anos e acumulou poder sob o comando de seu pai como uma figura sênior próxima às forças de segurança e ao vasto império de negócios que elas controlam. Ele se opôs aos reformadores que buscam se envolver com o Ocidente, que tenta restringir o programa nuclear do Irã.
Seus laços estreitos com os Guardas Revolucionários (IRGC) de elite lhe conferem maior influência sobre o aparato político e de segurança do Irã. Ele também acumulou influência nos bastidores como o “guardião” de seu pai, disseram fontes familiarizadas com o assunto.
“Ele conta com uma base sólida e apoio dentro do IRGC, em particular entre as gerações radicais mais jovens”, disse Kasra Aarabi, chefe de pesquisas sobre o IRGC na United Against Nuclear Iran, uma organização políticas públicas com sede nos EUA.
O líder supremo tem a palavra final sobre assuntos de Estado, inclusive política externa e o programa nuclear do Irã. As potências ocidentais querem evitar que Teerã desenvolva armas nucleares. O Irã afirma que seu programa nuclear é apenas para fins civis.
Mojtaba poderá enfrentar a oposição dos iranianos que demonstraram estar prontos para realizar protestos em massa para exigir mais liberdades, apesar das repressões sangrentas das autoridades.
Ele nasceu em 1969 na cidade sagrada xiita de Mashhad e cresceu enquanto seu pai ajudava a liderar a oposição ao Xá. Quando jovem, ele serviu na guerra Irã-Iraque.
Mojtaba estudou com conservadores religiosos nos seminários de Qom, o centro de aprendizado teológico xiita do Irã, e tem o posto clerical de Hojjatoleslam.
Ele nunca ocupou um cargo formal no governo da República Islâmica. Ele apareceu em comícios de apoiadores, mas raramente falou em público.
Seu papel há muito tempo é fonte de controvérsia no Irã, com os críticos rejeitando qualquer indício de política dinástica em um país que derrubou um monarca apoiado pelos EUA em 1979.
Sanções dos EUA
O Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções a Mojtaba em 2019, dizendo que ele representava o líder supremo em “função oficial, apesar de nunca ter sido eleito ou nomeado para um cargo no governo”, além de trabalhar no gabinete de seu pai.
Seu site disse que Khameneijá havia delegado algumas de suas responsabilidades a Mojtaba, que, segundo o site, trabalhou em estreita colaboração com o comandante da Força Quds do IRGC e com a Basij, uma milícia religiosa afiliada à Guarda, “para promover as ambições regionais desestabilizadoras e os objetivos domésticos opressivos de seu pai”.
Mojtaba foi um alvo especial das críticas dos manifestantes durante os distúrbios causados pela morte de uma jovem sob custódia policial em 2022, depois que ela foi presa por supostamente violar os rígidos códigos de vestimenta da República Islâmica.
Em 2024, um vídeo foi amplamente compartilhado no qual ele anunciava a suspensão das aulas de jurisprudência islâmica que estava ministrando em Qom, alimentando especulações sobre os motivos.
Mojtaba tem forte semelhança com seu pai e usa o turbante preto de um sayyed, o que indica que sua família tem uma linhagem com o Profeta Maomé.
Críticos afirmam que Mojtaba não tem as credenciais clericais para ser líder supremo — Hojjatoleslam é um nível abaixo do posto de aiatolá, o cargo ocupado por seu pai e Ruhollah Khomeini, que fundou a República Islâmica.
Mas ele permaneceu no páreo, principalmente depois que outro candidato importante para o cargo, o ex-presidente Ebrahim Raisi, morreu em um acidente de helicóptero em 2024.
Um telegrama diplomático dos EUA escrito em 2007 e publicado pelo WikiLeaks citou três fontes iranianas que descreviam Mojtaba como um caminho para chegar a Khamenei.
Acredita-se que Mojtaba esteja por trás da súbita ascensão do linha-dura Mahmoud Ahmadinejad, que foi eleito presidente em 2005.
Mojtaba apoiou Ahmadinejad em 2009, quando ele ganhou um segundo mandato em uma eleição disputada que resultou em protestos contra o governo que foram violentamente reprimidos pela Basij e outras forças de segurança.
Mehdi Karroubi, um clérigo moderado que concorreu na eleição, escreveu uma carta a Khamenei na época contestando o que alegava ser o papel de Mojtaba em apoiar Ahmadinejad. Khamenei rejeitou a acusação.
A esposa de Mojtaba, que foi morta nos ataques aéreos do último sábado, era filha de um proeminente linha-dura, o ex-presidente do Parlamento Gholamali Haddadadel.